{"id":510319,"date":"2022-06-08T11:21:00","date_gmt":"2022-06-08T14:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510319"},"modified":"2022-11-07T09:08:35","modified_gmt":"2022-11-07T12:08:35","slug":"so-na-tua-zona-de-ternura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/so-na-tua-zona-de-ternura\/","title":{"rendered":"S\u00f3, na tua zona de ternura"},"content":{"rendered":"[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>Caroline Leduc (ECF\/AMP)<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cE a gente ainda se amar\u00e1, quando o amor desaparecer\u00e1&#8221;<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A palavra da \u00e9poca, se houvesse uma, poderia ser a de crise: crise econ\u00f4mica, crise de valores, crise de identidades\u2026 A partir de agora, a desorienta\u00e7\u00e3o caracteriza as nossas exist\u00eancias neste mundo que n\u00e3o assimila mais nenhuma teoria sint\u00e9tica \u2013 cada uma tendo demonstrado seu impasse particular. O amor, pelo contr\u00e1rio, parece escapar dessa crise generalizada da qual ele aparece como curativo. Que ele seja apresentado como ref\u00fagio contra a crise, valor supremo dando sentido \u00e0 vida ou rem\u00e9dio \u00e0s nossas feridas identit\u00e1rias, o amor \u00e9 o lugar de todos os consensos: lugar comum por excel\u00eancia, onde se reencontraria uma sociedade finalmente reconciliada com ela mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sexualidade, em contrapartida, provoca sempre esc\u00e2ndalo e divide posi\u00e7\u00f5es morais. Se a exposi\u00e7\u00e3o de suas manifesta\u00e7\u00f5es, que se tornou comum, banaliza seu lugar, o sentimento de uma transgress\u00e3o persiste e acompanha a fascina\u00e7\u00e3o que ela exerce: procuramos chocar nosso pr\u00f3prio pudor, fazendo-o, assim, existir dessa maneira paradoxal. Desse modo, a libertinagem afirmada, que tinha podido parecer uma solu\u00e7\u00e3o \u00e0s dificuldades conjugais dos anos 70, aparece ainda mais hoje como um avatar de certa mis\u00e9ria sexual \u2013 de um v\u00edcio um pouco pat\u00e9tico, como o ilustram numerosos document\u00e1rios de m\u00e1 qualidade sobre esse tema que inundam nossos televisores e fazem, ali\u00e1s, altos pontos de audi\u00eancia.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplarmente, a paix\u00e3o midi\u00e1tica que suscitou a queda de DSK assinala um julgamento popular sem preced\u00eancia: fora do amor \u2013 e o que supomos de uma sexualidade normal \u2013 n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Pela rapidez de sua queda, DSK transformou em profecia a afirma\u00e7\u00e3o de Fran\u00e7ois Mitterrand no come\u00e7o dos anos 90 a seu prop\u00f3sito, qualificando-o de \u201cgozador sem destino\u201d. O rei est\u00e1 nu, \u00e9 o caso de dizer. N\u00e3o obstante os problemas pol\u00edticos do caso e sem julgar a viol\u00eancia das pr\u00e1ticas sexuais imputadas a DSK, a condena\u00e7\u00e3o de uma sexualidade fora da norma e a jubila\u00e7\u00e3o secreta de ver fracassar o casal que ele formava com Anne Sinclair n\u00e3o faltaram no interesse popular do caso. S\u00f3 se trata de justi\u00e7a, quando gozamos fora da norma, em resumo. Esse precedente midi\u00e1tico desencadear\u00e1 ainda a <em>peopolisation<\/em><a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> do tratamento da informa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e desenha em pano de fundo um modelo de la\u00e7os de amor e de sexo diretamente inspirado nos filmes hollywoodianos que est\u00e3o dentro de uma conven\u00e7\u00e3o e sem atrativo. S\u00f3 podemos desejar coragem aos homens e \u00e0s mulheres da classe pol\u00edtica no trabalho de alinhamento da imagem que eles ter\u00e3o que dar como prova de conformidade da sua vida privada ao que essa moralidade de desenhos animados imp\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, essa vis\u00e3o ideal de la\u00e7os apaziguados em que sexo e amor encontrariam harmoniosamente o seu lugar no seio de um casal c\u00famplice e eternamente feliz n\u00e3o resiste \u00e0 primeira discuss\u00e3o de bar ou, mais diretamente, \u00e0 prova\u00e7\u00e3o que cada um passa na sua vida sentimental. Sendo dado que a cada dois casamentos, um termina em div\u00f3rcio, e que a libera\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o manteve suas promessas, as gera\u00e7\u00f5es atuais evidenciam um desamparo face \u00e0 necessidade de inventar um modelo no encontro com o outro que as satisfa\u00e7am. O direito a gozar promulgado por uma pornografia de f\u00e1cil acesso, colocando em cena uma rela\u00e7\u00e3o estereotipada de homens e de mulheres, na maior parte das vezes brutal, s\u00f3 pode se opor a uma representa\u00e7\u00e3o idealizada da realidade de um amor terno e apaixonado onde se reconciliaria a diferen\u00e7a dos sexos no compartilhamento e no respeito m\u00fatuo. A exacerba\u00e7\u00e3o permanente do desejo de felicidade individual, associado ao fracasso das gera\u00e7\u00f5es precedentes em transformar duravelmente o modelo tradicional do casal fundado no interesse das duas partes, conduziu seja a um fechamento neste \u00faltimo \u2013 com, por vezes, regras morais mais severas que antes em mat\u00e9ria de sexualidade \u2013, seja \u00e0 exaspera\u00e7\u00e3o de impasses. Deriva disso uma fragmenta\u00e7\u00e3o dos percursos sentimentais em pequenos per\u00edodos de vida, \u00e0s vezes radicalmente opostos uns aos outros, em que a sucess\u00e3o dos balan\u00e7os confronta cada um a sua mais profunda solid\u00e3o. O alongamento da dura\u00e7\u00e3o de vida, benef\u00edcio da medicina moderna, teve esta consequ\u00eancia inesperada: podemos amar e desejar a mesma pessoa depois de quinze a vinte anos de vida compartilhada?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 o amor na praia (ah ouh cha-cha-cha)<\/strong><a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor n\u00e3o escapa ent\u00e3o \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o das ideologias e das teorias que caracterizam a nossa \u00e9poca. Em rela\u00e7\u00e3o a isso, h\u00e1 somente solu\u00e7\u00f5es singulares, incluindo aquela do casal cl\u00e1ssico que n\u00e3o \u00e9 mais o modelo imposto socialmente, mas faz parte de uma escolha. \u00c9 ent\u00e3o a fidelidade que encarna sintomaticamente as quest\u00f5es que esta liberdade de escolha coloca quanto ao la\u00e7o, fabricado por cada um, entre o amor e o sexo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rompendo com a tradi\u00e7\u00e3o multissecular da hipocrisia na mat\u00e9ria, numerosos <em>sites <\/em>prop\u00f5em ent\u00e3o encontros ad\u00falteros, supostos ventilar a sufocante atmosfera conjugal. N\u00e3o \u00e9 desinteressante ler os artigos que acompanham o candidato infiel at\u00e9 a sua inscri\u00e7\u00e3o, tendo em vista a descomplexificar o assunto julgado \u201cainda tabu\u201d da infidelidade e lhe dando nas m\u00e3os todas as justificativas adequadas ao seu ato, pr\u00f3prias a varrer as retic\u00eancias que ele ou ela poderia conservar. A infidelidade, assim ponderada, n\u00e3o \u00e9 propriamente dita um encontro do qual o sentido pleno implica uma surpresa, enorme num segundo momento de uma pot\u00eancia interpretativa quanto \u00e0 hist\u00f3ria inicial assim desprezada. O adult\u00e9rio \u00e9 muito mais apresentado como participando a uma pragm\u00e1tica, e quase a uma rotina de vida conjugal que asseguraria, paradoxalmente, a longevidade. Trata-se, ent\u00e3o, menos da transgress\u00e3o de um limite interno que de tornar permanente o risco da perda do c\u00f4njuge leg\u00edtimo \u2013 este ficando, desde ent\u00e3o, indesej\u00e1vel. O argumento principalmente avan\u00e7ado \u00e9 este da fidelidade a si mesmo e a seus desejos, que tomaria o passo sobre toda considera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o saber\u00edamos dizer melhor a extrema solid\u00e3o que preside no seio mesmo dos casais, cada um estando hoje em primeiro lugar tomados pela solid\u00e3o do gozo, que suplanta em import\u00e2ncia as regras sociais ou \u00edntimas antes privilegiadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros tentam com mais ou menos contentamento o suingue, que continua marginal, mas \u00e9 surpreendentemente procurado por casais cada vez mais jovens \u2013 alguns na faixa et\u00e1ria dos 20 anos. Desde ent\u00e3o, frequentemente essa pr\u00e1tica tinha em vista encontrar um segundo respiro sexual \u00e0 rela\u00e7\u00e3o de casais engajados juntos desde muito tempo, numa tentativa de manter vivo o amor, tratando diretamente pelo outro os eventuais transbordamentos sentimentais que a rela\u00e7\u00e3o sexual poderia gerar. O fato de que certos jovens se engajem nisto sem mesmo esperar o sufocamento de seu desejo um pelo outro transforma em modo de vida o que era somente um arranjamento, sob a influ\u00eancia de certa pornografia democratizada pela Internet e de uma injun\u00e7\u00e3o a gozar promovida massivamente nas m\u00eddias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se, nos dois casos, de fazer durar o amor, evitando a frustra\u00e7\u00e3o sexual: subtraindo o amor do sexo como no adult\u00e9rio ou, ao contr\u00e1rio, atando-os nas pr\u00e1ticas de suingue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu confesso eu babei, voc\u00ea n\u00e3o meu amor<\/strong><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup>[5]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poliamor \u00e9, por sua vez, um fen\u00f4meno mais complexo. Teorizado notadamente pelo movimento libert\u00e1rio, inspirado \u00e0s vezes de uma leitura de Lao Tseu, ele consiste em \u201cviver das rela\u00e7\u00f5es sentimentais com v\u00e1rios parceiros, engajando ou n\u00e3o a sexualidade, em toda franqueza e no respeito de cada um\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>. A sua ilustra\u00e7\u00e3o c\u00e9lebre na Fran\u00e7a \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de Jean-Paul Sartre e de Simone de Beauvoir, mesmo se ela n\u00e3o portasse este nome. Os princ\u00edpios s\u00e3o a recusa da possessividade do corpo do outro e de exclusividade amorosa; a franqueza, o di\u00e1logo e o respeito; sem segredos nem mentiras, a situa\u00e7\u00e3o se coloca segundo os acordos conclu\u00eddos abertamente e reciprocamente entre todos os parceiros, e pode evoluir no tempo segundo o avan\u00e7o das negocia\u00e7\u00f5es. O poliamor pode se aplicar a pessoas que desejam ficar solteiras ou que t\u00eam parceiros, que se amam \u00e0s vezes entre si. Eles podem viver separados como juntos, a dois ou mais, e algumas vezes mesmo educam crian\u00e7as frutos de uma ou v\u00e1rias uni\u00f5es. As modalidades s\u00e3o, ent\u00e3o, extremamente diversas, dependendo dos votos de cada uma das pessoas em jogo. Pode existir uma rela\u00e7\u00e3o principal e rela\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias, mas um princ\u00edpio de n\u00e3o hierarquia das rela\u00e7\u00f5es \u00e9 o mais frequentemente presente. Para Fran\u00e7oise Simp\u00e8re, jornalista poliamorosa ela mesma casada h\u00e1 trinta anos, \u201co poliamor torna mais realista o amor eterno\u201d e, de uma vez s\u00f3, \u201ccompensa a injusti\u00e7a de ter s\u00f3 uma vida\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup>[7]<\/sup><\/a>. Cada um dos amores \u00e9 assim suposto ser \u00fanico, sem que uma hierarquia ou que a rivalidade intervenha. No plano amoroso, todas as rela\u00e7\u00f5es t\u00eam a mesma import\u00e2ncia, mas podem carregar projetos diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os poliamorosos s\u00e3o fi\u00e9is a todos os amantes, eles proclamam. Trata-se de deslocar a quest\u00e3o amorosa daquela da fidelidade. A dura\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 mais no primeiro plano, nem mesmo o apagamento do desejo \u2013 a multiplicidade dos parceiros mantendo-o sempre vivo. O poliamor, longe de ser um pretexto \u00e0 orgia, sup\u00f5e um conjunto de regras muito estritas e constantemente reformuladas para a satisfa\u00e7\u00e3o de todos, tendo em vista a realiza\u00e7\u00e3o de si \u2013 o que, muito frequentemente, consiste em conseguir controlar os ci\u00fames, do qual os adeptos do poliamor n\u00e3o negam a exist\u00eancia nem o potente inc\u00f4modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um hiperindividualismo assumido que domina no poliamor: ele \u00e9 suposto ser uma escolha individual ao inv\u00e9s de ser uma escolha de casal e parte da ideia de que ningu\u00e9m pode satisfazer sozinho o conjunto das nossas necessidades durante a vida. Uma satisfa\u00e7\u00e3o exaustiva est\u00e1 ent\u00e3o no seu horizonte. Mas ela \u00e9 poss\u00edvel? Talvez ainda menor, sendo dado o n\u00famero de parceiros e os desejos necessariamente contradit\u00f3rios? O equil\u00edbrio encontrado pode se revelar falso, um dos parceiros se reconhecendo como o infeliz da situa\u00e7\u00e3o, mesmo se ele pode fingir o contr\u00e1rio por um certo tempo, incluindo a seus pr\u00f3prios olhos. Admitir aparentemente os termos do contrato n\u00e3o significa que n\u00e3o procuraremos subvert\u00ea-los inconscientemente, por exemplo, para ser o eleito de um e do outro, traindo o princ\u00edpio de n\u00e3o exclusividade. Dois infi\u00e9is, dando livre curso ao seu adult\u00e9rio rec\u00edproco em poliamor, podem achar muito menos picantes as suas rela\u00e7\u00f5es at\u00e9 ent\u00e3o muito l\u00edcitas\u2026 Os exemplos n\u00e3o faltam de emboscadas deslizando entre as linhas do contrato, interrompendo \u00e0s vezes bruscamente o processo mesmo dessas negocia\u00e7\u00f5es infinitas, com o fim da(s) rela\u00e7\u00e3o(\u00f5es).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica frequente do poliamor, que consiste em denunciar nela uma impossibilidade de se engajar e de escolher, n\u00e3o parece t\u00e3o pertinente \u2013 de qualquer forma, por que n\u00e3o, se tem para todos os gostos? Um marido infiel \u00e9 mais engajado amorosamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua mulher? \u00c9 muito mais o estatuto das negocia\u00e7\u00f5es entre os parceiros que \u00e9 problem\u00e1tico, baseado na cren\u00e7a num livre-arb\u00edtrio em mat\u00e9ria de amor que domesticaria todo transbordamento pelo controle total das pr\u00e1ticas autorizadas ou proibidas, e que pretende que tudo o que tem a ver com o amor e o sexo seria diz\u00edvel. Mas as cl\u00e1usulas desses contratos \u00edntimos, t\u00e3o detalhadas sejam elas, n\u00e3o recobrem necessariamente o que efetivamente \u00e9 trai\u00e7\u00e3o, o que sempre nos surpreende, depois de todas as precau\u00e7\u00f5es tomadas. \u00c9 a cren\u00e7a louca de que podemos resolver as contradi\u00e7\u00f5es do amor e do sexo, sendo que toda tentativa de controle do gozo est\u00e1 destinada a fracassar \u2013 o que faz do poliamor um fiasco entre tantos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor \u00e9 uma conversa fiada<\/strong><a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup>[8]<\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existe um estudo, baseado na neuroimagem, segundo o qual o amor faz desaparecer o senso cr\u00edtico: sem piada. A an\u00e1lise das imagens cerebrais tem isso de fabuloso \u2013 ela permite verificar um a um os prov\u00e9rbios das nossas av\u00f3s, colocando em s\u00e9rie as suas contradi\u00e7\u00f5es: o que se parece se junta; os opostos se atraem. Uma das \u00faltimas teorias biol\u00f3gicas em voga sobre o amor nos ensina que o amor-paix\u00e3o dos come\u00e7os \u2013 durante tr\u00eas anos, segundo Fr\u00e9d\u00e9ric Beigbeder, mas somente dezoito meses para os cient\u00edficos estraga-prazeres \u2013 s\u00f3 seria devido \u00e0 produ\u00e7\u00e3o intensa de ocitocina, o que explicaria o fracasso de muitos casais incapazes de se passar desta droga est\u00fapida que \u00e9 o amor e de passar \u00e0 rapidez de cruzeiro do amor-raz\u00e3o. Esta teoria n\u00e3o explica, no entanto, como a produ\u00e7\u00e3o desses horm\u00f4nios acaba por se tornar rara&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colocar o problema no plano biol\u00f3gico, n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed uma met\u00e1fora dessa solid\u00e3o da puls\u00e3o \u00e0 qual a \u00e9poca nos confronta? Al\u00e9m de uma puls\u00e3o de ordem puramente masturbat\u00f3ria, que, ali\u00e1s, termina sempre em decep\u00e7\u00e3o, trata-se tamb\u00e9m da solid\u00e3o que nos reenvia em eco nosso apelo por um amor que viria perfeitamente lhe responder, e que nunca est\u00e1 presente, n\u00e3o importam os prazeres que n\u00f3s encontramos em compartilhar a vida com nosso parceiro sentimental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na batalha que o cinismo e a ternura pilotam para arbitrar sobre nossas escolhas de vida, o que emerge principalmente do emaranhado do amor e do sexo \u00e9 sua pot\u00eancia ficcional e a necessidade que n\u00f3s temos disso. O amor \u00e9 o fracasso ao qual n\u00e3o nos resolvemos, compreendido como um ponto l\u00f3gico inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana: sintoma supremo, sempre potente a se reinventar. Como dizia C\u00e9line, \u201co amor, \u00e9 o infinito colocado ao alcance dos poodles\u201d. Nossa necessidade de hist\u00f3rias \u00e9 imposs\u00edvel de saciar, e a gente nunca inventou nada melhor que o amor para se contar hist\u00f3rias, organizar e desorganizar teorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s vivemos felizes e tivemos muitos filhos. Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o diz nunca como.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Luciana Zeraib<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Texto publicado originalmente em Le Diable probablement amoureux, Paris, Verdier, n. 10, p. 30-35, 2012. Agradecemos a autora por sua am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Joe Dassin, \u201cL\u2019\u00e9t\u00e9 indien\u201d (\u201cO ver\u00e3o ind\u00edgena\u201d), 1975, www.youtube.com.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Por exemplo: \u201cLibertinagem: estes casais que apimentam sua sexualidade\u201d, transmitido em 6 de abril de 2012 em Direct 8.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> N.T.: propens\u00e3o da m\u00eddia em dar import\u00e2ncia \u00e0 vida privada do pol\u00edtico, apresentando-a ao p\u00fablico sem discri\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup>[4]<\/sup><\/a> Niagara. <em>L\u2019amour \u00e0 la plage<\/em>, 1986. Disponivel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=WkPV51HtLfw.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup>[5]<\/sup><\/a> Serge Gainsbourg. <em>La javanaise<\/em>, 1963. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=V6gjzNm6dA0.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup>[6]<\/sup><\/a> Cf. THALMAN, Yves-Alexandre.<em> Vertus du polyamour<\/em>: la magie des amours multiples. Saint-Julien-en-Genevois: \u00c9ditions Jouvence, 2006. (<em>Virtudes do poliamor<\/em>: a magia dos amores multiplos, em tradu\u00e7\u00e3o livre)<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup>[7]<\/sup><\/a> Ver seu <em>blog<\/em> http:\/\/fsimpere.over-blog.com\/.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup>[8]<\/sup><\/a> Brigitte Fontaine. <em>L\u2019amour, c\u2019est du pipeau<\/em>, 2002. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=BWUk59xG_yc.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;]<div class=\"norebro-icon-box-sc icon-box text-center\" \n\tid=\"norebro-custom-6a0f79328e182\" \n\t \n\t>\n\n\t<div class=\"icon-wrap\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"linea-basic-sheet-pen\"><\/span>\n\t\t\t<\/div>\n\n\t<div class=\"content-wrap\">\n\n\t\t<div class=\"content-center with-full\">\n\t\t\t<div class=\"wrap\">\n\t\t\t\t<h3>DOWNLOAD PDF<\/h3>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<p class=\"description content-full\">\n\t\t\t\t\t<\/p>\n\n\t\t\t\t\t<a class=\"btn\" href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/So-na-tua-zona-de-ternura-Caroline-Leduc.pdf\"\n\t\t\t>\n\t\t\t\tRead more\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\n\t\t\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text] Caroline Leduc (ECF\/AMP) \u201cE a gente ainda se amar\u00e1, quando o amor desaparecer\u00e1&#8221;[1] A palavra da \u00e9poca, se houvesse uma, poderia ser a de crise: crise econ\u00f4mica, crise de valores, crise de identidades\u2026&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510319"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=510319"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510319\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":510680,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510319\/revisions\/510680"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=510319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=510319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=510319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}