{"id":510317,"date":"2022-06-08T11:16:26","date_gmt":"2022-06-08T14:16:26","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510317"},"modified":"2022-11-07T09:07:50","modified_gmt":"2022-11-07T12:07:50","slug":"o-amor-sempre-outro1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-amor-sempre-outro1\/","title":{"rendered":"O Amor. sempre Outro1"},"content":{"rendered":"[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>Oscar Ventura (EOL\/AMP)<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou orientar-me atrav\u00e9s de alguns recortes, pe\u00e7as soltas sobre o amor. Primeiro, proponho colocar em tens\u00e3o um bin\u00f4mio cl\u00e1ssico: amor e repeti\u00e7\u00e3o. Depois, explorar as coordenadas do amor e a sexualidade, assim como formular algumas quest\u00f5es a respeito de seu lugar no mundo contempor\u00e2neo. Farei uma breve reflex\u00e3o sobre o amor e o tempo, para concluir sobre o amor, o \u00f3dio e a segrega\u00e7\u00e3o. Parece um programa de estudo, mas n\u00e3o se alarmem: ser\u00e3o pinceladas sobre essas quest\u00f5es para poder, antes de tudo, oferecer-lhes uma tors\u00e3o a mais ao tema do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando anunciei o t\u00edtulo desta interven\u00e7\u00e3o para Elisa, na realidade, n\u00e3o sabia o que queria transmitir com ele. Surgiu de improviso. Inclusive, tive com Elisa trocas por WhatsApp a respeito da sintaxe, coloquei o Amor em letra mai\u00fascula, um S<sub>1<\/sub>, seguido de um ponto e, rompendo um pouco com a gram\u00e1tica, pus o sempre com min\u00fascula e o Outro com mai\u00fascula.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, come\u00e7arei dizendo algo geral a respeito desse Outro que aparece no t\u00edtulo. Devo confessar que fiquei surpreendido com o t\u00edtulo que dei e, nesse momento, tive uma ideia muito clara de como poderia desenvolv\u00ea-lo. Mas essa ideia \u2013 que n\u00e3o anotei, confiando em minha mem\u00f3ria \u2013 se evaporou. N\u00e3o consegui recuper\u00e1-la at\u00e9 que me vi na encruzilhada de ter que escrever esta confer\u00eancia. E devo lhes confessar que o t\u00edtulo me alarmou um pouco porque n\u00e3o sabia muito bem o que queria dizer, me parecia contradit\u00f3rio, porque \u2013 efetivamente e com muita frequ\u00eancia, em um sentido cl\u00e1ssico, freudiano se voc\u00eas quiserem, inclusive no primeiro ensino de Lacan \u2013 identificamos o amor com a repeti\u00e7\u00e3o, mais que com a outridade. Amor e repeti\u00e7\u00e3o constituem um bin\u00f4mio central na doutrina anal\u00edtica, e n\u00e3o podemos negar que o amor tem essa ancoragem na repeti\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria experi\u00eancia cl\u00ednica \u00e9 tribut\u00e1ria disso. A pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia se funda para Freud na repeti\u00e7\u00e3o de um amor, mesmo que artificial, ou seja, desencadeado pelo artif\u00edcio da transfer\u00eancia, n\u00e3o deixando de ser a renova\u00e7\u00e3o do velho amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor repeti\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se nos aproximarmos de uma forma geral, como num voo de um p\u00e1ssaro, da teoria freudiana do amor, observamos que a matriz do amor tem, em \u00faltima inst\u00e2ncia, como suporte o \u00c9dipo freudiano. Isso nos conduz a uma estrutura da subjetividade em que o amor fica apanhado nas redes da repeti\u00e7\u00e3o. Quando nos detemos nos textos de Freud, em suas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia da vida amorosa, tudo nos conduz a pensar que, quando amamos, n\u00e3o fazemos mais que repetir. Encontrar o objeto \u00e9 sempre reencontr\u00e1-lo sob outras condi\u00e7\u00f5es, mas evocaria sempre aquele objeto primordial; nesta dire\u00e7\u00e3o, todo objeto de amor seria substituto de algum objeto fundamental, pr\u00e9vio \u00e0 barreira do incesto. A constru\u00e7\u00e3o freudiana do amor est\u00e1 feita para demonstrar o amor como repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, h\u00e1 que dizer, tamb\u00e9m, que esta condi\u00e7\u00e3o do amor como repeti\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo que se teria que dar por obsoleto, algo que tenha perdido sua vig\u00eancia na doutrina anal\u00edtica; em vez disso, \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias do que Freud chamava a din\u00e2mica da transfer\u00eancia. Sempre em uma cura encontramos a vertente do amor como repeti\u00e7\u00e3o e os efeitos dessa repeti\u00e7\u00e3o se traduzem de diferentes maneiras. Pode ocorrer e \u00e9 bastante frequente que a repeti\u00e7\u00e3o se enode ao sintoma, que seja a causa do mal-estar que produz o sintoma, quando o sujeito sempre se encontra com o mesmo. \u00c9 quando o excesso de gozo se liga ao amor, quando as m\u00e1scaras que velavam o gozo caem, caindo a fun\u00e7\u00e3o de v\u00e9u necess\u00e1ria que o amor requer: h\u00e1 sempre algo insuport\u00e1vel nessa revela\u00e7\u00e3o. A repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 um esfor\u00e7o em neutralizar esse mais posto em jogo; \u00e9 uma tentativa, sempre falha, de outra coisa; nesse sentido, o amor se torna sempre o mesmo. Pode ocorrer que a repeti\u00e7\u00e3o seja a pr\u00f3pria solu\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia cl\u00ednica nos faz ver esse tra\u00e7o da repeti\u00e7\u00e3o como solu\u00e7\u00e3o, \u00e9 a face de rotina do amor. Muitas vezes \u00e9 conveniente, sob um ponto de vista cl\u00ednico, dar consist\u00eancia a essa rotina, porque \u00e0s vezes pode adquirir a f\u00f3rmula: a rotina do amor ou o pior. A experi\u00eancia anal\u00edtica, em todo caso, n\u00e3o deixa de ser uma m\u00e1quina de explorar os limites da repeti\u00e7\u00e3o no que concerne ao amor. De p\u00f4r \u00e0 prova at\u00e9 que ponto o amor pode ir mais al\u00e9m. E de que maneira. Porque as solu\u00e7\u00f5es, quando o amor se inscreve mais al\u00e9m da repeti\u00e7\u00e3o, adquirem uma forma \u00fanica para cada Um. N\u00e3o h\u00e1 um amor igual a outro. Quando transitamos num territ\u00f3rio que vai mais al\u00e9m da repeti\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o amor n\u00e3o \u00e9 mais sempre o mesmo, \u00e9 quando tem a possibilidade de ser sempre Outro para cada Um.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lacan nos oferece, efetivamente, a possibilidade de explorar este territ\u00f3rio, justamente porque nos faz ver que o dispositivo anal\u00edtico, o pr\u00f3prio corpo do analista, poder\u00edamos dizer, pode converter-se em uma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o em que o amor se fixa. A quest\u00e3o in\u00e9dita do amor formulada por Lacan subverte a l\u00f3gica do amor como repeti\u00e7\u00e3o, vai contra a in\u00e9rcia do amor. Para Lacan, o amor \u00e9 inven\u00e7\u00e3o, em primeira inst\u00e2ncia \u00e9 uma elabora\u00e7\u00e3o de saber, mas de um saber muito singular, um saber que diz respeito ao objeto. O amor \u00e9 um modo de dirigir-se ao objeto pequeno <em>a<\/em> a partir do Outro do significante; nesse sentido, \u00e9 necess\u00e1rio um relato do amor. Mas Lacan n\u00e3o homologa o relato com a hist\u00f3ria de amor. Em vez disso, o amor \u00e9 o que faz resson\u00e2ncia em um corpo dessas palavras mais al\u00e9m do relato. Essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o que cumprem as palavras de amor, as cartas de amor, um esfor\u00e7o em oferecer ao amor um nome pr\u00f3prio que possa dizer algo sobre esse objeto. \u00c9 inventar, a partir de um signo, algo que n\u00e3o consegue se formalizar, mas, no entanto, se encarna. \u00c9 construir nas bordas desse objeto, como diz Jacques-Alain Miller, \u201cuma obra de linguagem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 evidente que nos esfor\u00e7amos para alcan\u00e7ar a linguagem pela via da escritura, da escritura que podemos fazer da experi\u00eancia do amor. Mas a escritura, afinal, s\u00f3 nos oferece algo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s matem\u00e1ticas, em que operamos por meio da l\u00f3gica formal, por processos de extra\u00e7\u00e3o de certo n\u00famero de coisas e que definimos como axiomas. E o que se extrai desta maneira s\u00e3o letras. Essas letras que extra\u00edmos n\u00e3o permitem escrever uma mem\u00f3ria do amor, nem tampouco h\u00e1 mem\u00f3ria de uma Psican\u00e1lise que possa escrever-se em nenhum suporte material. Na experi\u00eancia de uma an\u00e1lise tudo se apoia sobre uma met\u00e1fora. Essa met\u00e1fora que constru\u00edmos nada diz de fato que seja v\u00e1lida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m poderia imaginar que o amor seria algo que se imprime a partir das experi\u00eancias prim\u00e1rias e que as marcas dessa experi\u00eancia reativariam seu funcionamento, sua l\u00f3gica. \u00c9 verdade, isso \u00e9 validado pela tradi\u00e7\u00e3o freudiana: o amor tem seu lado de marca antiga, de identifica\u00e7\u00e3o, inclusive. O amor como marca est\u00e1 destinado \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o pela via do significante, se escreve em algoritmo. O amor neste registro fala para si, produz um la\u00e7o que o dobra sobre si mesmo. N\u00e3o obstante, o resultado de uma an\u00e1lise, sua conclus\u00e3o, nos permite tamb\u00e9m captar outra rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel com o amor que o desloca do campo da verdade, da verdade do Outro, ao acontecimento de corpo como resposta ao imposs\u00edvel de dizer do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>O amor Outro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que \u00e9 l\u00edcito, para desativar at\u00e9 onde se pode o <em>pathos<\/em> da repeti\u00e7\u00e3o no amor, p\u00f4r em causa um amor que se inscreveria no territ\u00f3rio de $ e do Outro. Um amor que possa escrever outra coisa a partir do impacto de lal\u00edngua sobre o corpo. Seguramente, ambas as dimens\u00f5es funcionam articuladas, mas sempre at\u00e9 um certo ponto. Do lado do Outro temos as marcas, as identifica\u00e7\u00f5es, as escans\u00f5es sobre as quais se constr\u00f3i um relato de amor, mas isto se produz sobre um fundo que sempre escapa. Neste tr\u00e2nsito, em algum momento as marcas do amor se perdem. Sem d\u00favida, este \u00e9 um momento inquietante e, ao mesmo tempo, fecundo da experi\u00eancia cl\u00ednica. Nesse territ\u00f3rio, nesse litoral sem as marcas do velho amor que nos orientem, \u00e9 poss\u00edvel verificar que o ato de falar de amor, que as palavras de amor podem surgir sem mem\u00f3ria nenhuma para sustentar-se, sem Outro. Porque o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o s\u00e3o os significantes do Outro, e sim os buracos pulsionais que a \u00fanica coisa que escrevem s\u00e3o os impactos do gozo no corpo, e isso n\u00e3o tem tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao falar, no pr\u00f3prio for\u00e7amento da palavra que a experi\u00eancia anal\u00edtica implica, afinal se cria a pr\u00f3pria l\u00edngua que habita cada um, n\u00e3o h\u00e1 universal que resista a isso. Tal como lembra Jacques-Alain Miller, \u201co mais fundamental da l\u00edngua consiste em que se cria ao falar\u201d. E podemos acrescentar que o que orienta o sujeito n\u00e3o \u00e9 o Outro e sim esses buracos puls\u00e1teis que afinal fazem com que os corpos falem de amor orientados por experi\u00eancias sem representa\u00e7\u00e3o nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se seguimos a b\u00fassola de que a l\u00edngua se cria ao falar, n\u00e3o h\u00e1 nenhum Outro que possa dizer algo sobre a experi\u00eancia de amor. \u00c9, em vez disso, a surpresa de lal\u00edngua atada ao acontecimento de corpo o que permite, at\u00e9 onde se possa, objetar \u00e0 insist\u00eancia da puls\u00e3o de morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos dizer de outro modo. O amor descompleta a significa\u00e7\u00e3o, faz com que a\u00ed onde se escreve n\u00e3o se possa dizer dele a \u00faltima palavra. Os m\u00ednimos detalhes de sua experi\u00eancia, para cada um, se tornam fundamentais. No decorrer de uma an\u00e1lise, os espelhismos que o amor provoca s\u00e3o reduzidos, s\u00e3o atravessados; sua inscri\u00e7\u00e3o fica fora do campo da identifica\u00e7\u00e3o e esse movimento \u00e9 tribut\u00e1rio da extra\u00e7\u00e3o do objeto que condensava as condi\u00e7\u00f5es de amor. Ent\u00e3o, a partir da\u00ed, o amor pode se tornar Outra coisa gra\u00e7as ao vazio que provoca essa opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor muda no final da an\u00e1lise. \u00c9 importante assinalar a passagem de um amor condicionado a um amor com condi\u00e7\u00f5es. O amor condicionado fantasmaticamente \u00e9 tribut\u00e1rio da escolha no marco da repeti\u00e7\u00e3o e p\u00f5e em primeiro plano um fazer dif\u00edcil, uma dificuldade com a falta, pois est\u00e1 prisioneiro da l\u00f3gica da fantasia. Geralmente, destina-se a mudar o outro, o parceiro, sem poder ver que isso mesmo que se recusa no outro \u00e9 o que motivou inconscientemente a escolha amorosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor com condi\u00e7\u00f5es \u00e9 preciso modaliz\u00e1-lo, porque sabe quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias e leva em conta as do outro. O amor significa que a rela\u00e7\u00e3o ao Outro est\u00e1 mediatizada pelo sintoma, que permite cernir e localizar o objeto, mas, como diz Lacan no semin\u00e1rio 24, o amor \u00e9 vazio. Ou seja, \u00e9 um amor que conta com as condi\u00e7\u00f5es de gozo sintomatizadas e que pode desfrutar da liberdade de um vazio liberado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O testemunho da experi\u00eancia de amor verifica que n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de homologa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se inventou sua clonagem no momento. N\u00e3o h\u00e1, portanto, um amor igual ao outro; o amor, de alguma maneira, \u00e9 sempre outro. N\u00e3o somos mais que um. O Amor aspira ao Um. Para nos entendermos, diz Lacan em <em>Mais, ainda<\/em>: \u201c[&#8230;] H\u00e1 tantos Uns como se queira; que se caracterizam cada um por n\u00e3o se parecerem em nada [&#8230;]\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, n\u00e3o obstante, os ecos do amor n\u00e3o deixam de ressoar no conjunto; o amor est\u00e1 na boca de todo mundo; n\u00e3o se deixou, ainda, de falar de amor. E esses ecos d\u00e3o conta, se me permitem diz\u00ea-lo assim, do imposs\u00edvel de cernir o amor pelo aparelho simb\u00f3lico. A psican\u00e1lise est\u00e1 advertida deste imposs\u00edvel e \u00e9 por isso que Lacan prop\u00f5e um amor mais digno que o bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 onde se borra sua autenticidade. Talvez, uma das formas poss\u00edveis de nomear o amor mais digno nesta \u00e9poca em que os v\u00e9us se desgarram \u00e9 aquele que possa sintomatizar-se de tal maneira que permita n\u00e3o fazer do gozo pura obscenidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor, o discurso capitalista e o sintoma<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem d\u00favida, n\u00e3o podemos ignorar as coordenadas do discurso que hoje habita o la\u00e7o social. N\u00f3s o repetimos muitas vezes: o discurso capitalista foraclui o amor. Empurra para reduzir o amor a uma constru\u00e7\u00e3o que sonha em torn\u00e1-lo uma f\u00f3rmula universal sob uma pluralidade de pr\u00e1ticas. Desde rastrear sua causa em um gene que possa identific\u00e1-lo, at\u00e9 a suposta qu\u00edmica que o desencadearia, passando pelas pedagogias do encontro sexual, no qual a pornografia \u00e9 seu instrumento privilegiado. O discurso empurra para produzir uma ascese do amor, pretende destitu\u00ed-lo de seu imposs\u00edvel, oferecer-lhe um nome definitivo que possa inscrever-se como uma pr\u00e1tica a mais, desfazer-se do inc\u00f4modo que o amor desperta. Na busca de sua certeza, n\u00e3o encontramos mais que a impot\u00eancia de um uivo, que busca achar no amor a lei que falta ao real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provavelmente, \u00e9 nesse ponto que tudo se torna deriva. Entre a universalidade de sua presen\u00e7a e a diferen\u00e7a absoluta de sua consuma\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o abismo que abre a aus\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. O ato anal\u00edtico modula esse abismo at\u00e9 torn\u00e1-lo, quando se consente a isso, a pr\u00f3pria causa do desejo. A pr\u00e1xis da psican\u00e1lise revela que o amor \u00e9 puro acontecimento. Ele se inscreve mais al\u00e9m, tanto da verdade formalizada, como dos cativeiros imagin\u00e1rios por onde passa. \u00c9 sob esse tel\u00e3o de fundo que o amor pode tornar-se novo, que pode surpreender o sujeito, como dizia Lacan, em \u201cum dizer que faz acontecimento. Que faz resson\u00e2ncia no inconsciente do Outro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, verificamos a dificuldade que existe na contemporaneidade para que os sujeitos possam se orientar no campo do amor em um mundo de pr\u00e1ticas cada vez mais bizarras e de corpos cada vez mais ausentes. As pr\u00e1ticas de gozo contempor\u00e2neas se inscrevem neste programa do discurso que pretende executar uma ascese do amor. De fato, as formas que tomam, por exemplo, as pr\u00e1ticas sexuais est\u00e3o cada vez mais despojadas de um relato; a coalesc\u00eancia do discurso capitalista e da ci\u00eancia facilita um campo em que a experi\u00eancia de gozo seja transit\u00e1vel sem as perturba\u00e7\u00f5es que o amor implica. E para isso desencadeia at\u00e9 \u00e0 saciedade o campo da fantasia e sua promessa de gozo imediato. Podemos nos perguntar se a tentativa de fazer do gozo sexual um contrato que se inscreva fora do campo do amor ser\u00e1 um destino que tome o la\u00e7o social ou se, pelo contr\u00e1rio, encontraremos as f\u00f3rmulas de p\u00f4r os paus nas rodas da maquinaria do discurso. De uma forma ou de outra, inclinamo-nos a recomendar amplamente a leitura de <em>Justine<\/em>, de Sade, e, desse modo, poder verificar qual \u00e9 o destino final quando se pretende formalizar um contrato sobre o gozo sexual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou seguir um pouco sobre esse fio. Estou me perguntando algumas coisas em voz alta. Atravessamos um momento in\u00e9dito, assistimos a um cen\u00e1rio do mundo no qual a flutua\u00e7\u00e3o entre presen\u00e7a e aus\u00eancia dos corpos \u00e9 in\u00e9dita e muda a uma velocidade vertiginosa. O c\u00e1lculo n\u00e3o consegue escrever o peda\u00e7o de real que escapa \u00e0 verdade formalizada. Provavelmente, \u00e9 ainda muito cedo para extrair um saber dos efeitos que a pandemia vai operar sobre o la\u00e7o social; n\u00e3o sabemos, a partir da profunda retifica\u00e7\u00e3o que estamos vivendo, o rumo que as coisas v\u00e3o tomar. E n\u00e3o h\u00e1 outra possibilidade que lidar com essa incerteza. A pandemia p\u00f5e \u00e0 prova tamb\u00e9m a capacidade de inven\u00e7\u00e3o. Talvez agora, mais que nunca, \u00e9 necess\u00e1rio materializar este significante para lhe dar um alcance real. \u00c9 um desafio escrever as modalidades do que \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o e transmiti-la, para que isso tenha algum efeito entre n\u00f3s e para al\u00e9m de n\u00f3s. N\u00e3o conv\u00e9m, por outra parte, escrever as inven\u00e7\u00f5es no campo do ideal. N\u00e3o podemos permitir esse deslocamento; \u00e9 necess\u00e1ria uma disjun\u00e7\u00e3o entre inven\u00e7\u00e3o e ideal para dar um alcance poss\u00edvel a esse pequeno detalhe de cada um que possa oferecer-nos, afinal, a possibilidade de algo novo. Disso se trata tamb\u00e9m no amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos formular uma pergunta que vai mais al\u00e9m da pandemia, uma pergunta que preocupa nossa \u00e9poca. O amor est\u00e1 amea\u00e7ado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o poucos os que pensam que a experi\u00eancia do amor estaria em vias de extin\u00e7\u00e3o. S\u00e3o numerosos e plurais os discursos que advertem do perigo em que cada vez mais \u00e9 pronunciada sua aus\u00eancia no la\u00e7o social. Que sua metamorfose o torna irreconhec\u00edvel, parecendo que ele perdeu sua consist\u00eancia. Por um lado, pode se escutar em um conjunto mais amplo uma certa nostalgia no sentido de que o amor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era. Mas n\u00e3o sabemos muito bem o que ele \u00e9 agora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para soci\u00f3logos como Zygmunt Bauman, que se constituiu em uma refer\u00eancia cl\u00e1ssica e indispens\u00e1vel no que diz respeito ao tema do amor e da contemporaneidade, o amor se torna l\u00edquido e se dilui, escapa das m\u00e3os. Para Zygmunt Bauman, existe<\/p>\n<blockquote><p>uma enfermi\u00e7a fragilidade e vulnerabilidade nas parcerias (&#8230;) uma fluidez, fragilidade e transitoriedade impl\u00edcitas que n\u00e3o t\u00eam precedentes caracterizam toda classe de v\u00ednculos sociais, aqueles que apenas h\u00e1 algumas d\u00e9cadas se estruturavam dentro de um marco duradouro e confi\u00e1vel permitindo tramar uma segura rede de intera\u00e7\u00f5es humanas [&#8230;]<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fil\u00f3sofo Alain Badiou se viu na urg\u00eancia de publicar um <em>Elogio ao amor<\/em> (<em>\u00c9loge de l\u2019amour<\/em>) \u2013 quando ele transformou em livro um di\u00e1logo seu com o periodista Nicolas Truong, publicado pela Flammarion em 2010. Sua preocupa\u00e7\u00e3o reside justamente em que \u201co amor deve reinventar-se mas, tamb\u00e9m, simplesmente, deve ser defendido porque se encontra amea\u00e7ado por todo lado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambas as posi\u00e7\u00f5es coincidem, sem d\u00favida, em duas quest\u00f5es centrais: a da diferen\u00e7a e a do tempo. Consideram que um fundamento da experi\u00eancia do amor \u00e9 suportar a diferen\u00e7a e o outro que deve perpetuar-se no tempo. \u201c\u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o de verdade\u201d \u2013 diz Alain Badiou \u2013 \u201cum amor verdadeiro \u00e9 aquele que triunfa de modo dur\u00e1vel, \u00e0s vezes com grandes dificuldades, frente aos obst\u00e1culos que lhe prop\u00f5em o espa\u00e7o, o mundo e o tempo\u201d. Ambos n\u00e3o deixam de inquietar-se frente aos destinos incertos quando verificam que as coisas do amor j\u00e1 n\u00e3o duram, sejam quais forem os objetos que o amor encontre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s, psicanalistas, constatamos tamb\u00e9m que a vida amorosa \u00e9 uma vicissitude com a qual o sujeito de hoje em dia n\u00e3o est\u00e1 demasiado disposto a consentir, prefere ignorar suas dificuldades em benef\u00edcio de um tipo de la\u00e7o mais ef\u00eamero e mais d\u00e9bil. Pode-se verificar a dificuldade que o sujeito desta \u00e9poca tem para orientar-se no universo da falta. Sem ela, sabemos, nada pode se estruturar no que concerne \u00e0 experi\u00eancia do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uma forma ou de outra, o Amor, essa fonte de inspira\u00e7\u00e3o de muitos, esse grito universal, desgarrado talvez, n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever. Consentir\u00e1 a humanidade a declinar a f\u00f3rmula lacaniana de que toda demanda \u00e9 demanda de amor em dire\u00e7\u00e3o a toda demanda \u00e9 demanda de gozo? Isso subverteria os pr\u00f3prios fundamentos da pr\u00e1xis anal\u00edtica. Provavelmente, n\u00e3o nos equivocaremos em conjecturar que o amor pode oferecer uma tors\u00e3o a mais, uma volta a mais para verificar o destino que o analisante oferece ao imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais que \u201cuma constru\u00e7\u00e3o de verdade\u201d, como disse Alain Badiou, o amor \u00e9 um peda\u00e7o de real que pode ser oferecido como possibilidade de faz\u00ea-lo funcionar como sinthoma, uma forma de oferecer \u00e0 exist\u00eancia um furo atrav\u00e9s do qual se possa respirar. E talvez o segredo consista n\u00e3o tanto em alamar-se pela aus\u00eancia das formas cl\u00e1ssicas do amor, sen\u00e3o por fazer a aposta e poder testemunhar sobre as formas novas e singulares de sua presen\u00e7a. Nesse sentido, conv\u00e9m n\u00e3o perder o horizonte do sintoma. Se o amor se amarra ao sintoma, temos efetivamente a possibilidade de analis\u00e1-lo: a\u00ed onde h\u00e1 um sintoma, haver\u00e1 um analista. Conv\u00e9m manter esse estranho entusiasmo pelo sintoma, em tempos de pandemia e mais al\u00e9m destes tempos. Essa teimosia que temos em captar o funcionamento do sintoma \u00e9 uma marca do desejo do analista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor e o tempo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou p\u00f4r um pouco a lupa sobre o amor e o tempo. O tempo e o amor s\u00e3o uma parceria necess\u00e1ria. \u00c9 dif\u00edcil conceber um amor sem a refer\u00eancia ao tempo. Alguns o pensam como eterno, outros quiseram det\u00ea-lo justo neste instante, outros se dedicam a contar as horas&#8230; Sempre, como tela de fundo, o tempo se cerne sobre a experi\u00eancia do amor como uma amea\u00e7a; teme-se que o tempo o desgaste; muitos teimam na imposs\u00edvel tarefa de tratar em recuper\u00e1-lo; h\u00e1 aqueles que enlouquecem na espera de sua chegada&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEstar contigo e n\u00e3o estar contigo \u00e9 a medida de meu tempo [&#8230;] O nome de uma mulher me delata. Uma mulher d\u00f3i em todo meu corpo\u201d, escrevia Borges como testemunho \u2013 n\u00e3o h\u00e1 muitos \u2013 de uma das raras ocasi\u00f5es em que o amor por uma mulher se tornou acontecimento. Roland Barthes, por exemplo, esperava uma chegada, uma reciprocidade, um signo prometido. Lacan lhe responde: mesmo que o amor seja rec\u00edproco, \u00e9 impotente porque ignora o desejo que n\u00e3o \u00e9 mais que o desejo de ser Um&#8230; Tempo incont\u00e1vel, sem d\u00favida, o dos Uns.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, a er\u00f3tica que o tempo implica institui um fundamento da experi\u00eancia amorosa, o tempo \u00e9 o que faz existir a aus\u00eancia que o torna poss\u00edvel. Tudo indica que o tempo do amor n\u00e3o conv\u00e9m que seja ef\u00eamero; em vez disso, pensa-se que isso deve durar para que se torne experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, cabe perguntar-se at\u00e9 que ponto podemos continuar sustentando esse fundamento na \u00e9poca em que a ci\u00eancia vai operando uma pragm\u00e1tica quase definitiva sobre o tempo. Em que ele vai consumando sua redu\u00e7\u00e3o. Efetivamente, os la\u00e7os que se constituem sobre essa redu\u00e7\u00e3o do tempo parecem n\u00e3o ser solid\u00e1rios com os intervalos necess\u00e1rios que oferecem ao amor uma consist\u00eancia. Ao produzir uma pesquisa sobre a hist\u00f3ria cient\u00edfica do tempo, Jacques-Alain Miller se pergunta: \u201cse quando observamos este passo da hist\u00f3ria cient\u00edfica do tempo, h\u00e1 ou n\u00e3o uma foraclus\u00e3o do tempo. Uso esta palavra\u201d \u2013 diz \u2013 \u201ccom precau\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 o que a especializa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do tempo parece implicar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Efetivamente, as formas em que o la\u00e7o social se constr\u00f3i na contemporaneidade implicam essa redu\u00e7\u00e3o do tempo operada pelo discurso. No que concerne ao amor, come\u00e7a a deix\u00e1-lo \u00e0 merc\u00ea de uma escritura estranha. Cada vez com mais frequ\u00eancia o amor parece afastar-se das vari\u00e1veis que o bom uso da dimens\u00e3o do tempo lhe impunha. Como uma pequena amostra basta pensar o momento da espera, por exemplo, essa condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria do tempo que torna o amor sil\u00eancio, aus\u00eancia, incerteza&#8230; A espera, para dizer r\u00e1pido, \u00e9 o que o sujeito moderno suporta cada vez pior, de um modo geral. N\u00e3o \u00e9 infrequente que a viva como uma injusti\u00e7a. E claro, no que ao amor corresponde, seu empuxo n\u00e3o s\u00f3 para uma consuma\u00e7\u00e3o imediata da satisfa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m o vemos cada vez mais despojado das palavras que permitem habitar sua experi\u00eancia. O relato de amor come\u00e7a a faltar no trajeto para a experi\u00eancia de gozo. Nossa cl\u00ednica n\u00e3o \u00e9 alheia a essa dificuldade que a \u00e9poca da transpar\u00eancia generalizada imp\u00f5e, \u00e0s formas como a in\u00e9rcia do discurso vai esburacando a uma velocidade vertiginosa, aos v\u00e9us que a genealogia do amor vai tecendo em torno do objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje o la\u00e7o amoroso est\u00e1 cada vez mais sujeito \u00e0 l\u00f3gica da mensagem instant\u00e2nea. As formas que toma o interc\u00e2mbio permitem uma dilui\u00e7\u00e3o da espera em benef\u00edcio de um monitoramento constante do objeto. A digna solid\u00e3o do amor efetivamente est\u00e1 perturbada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, penso que n\u00e3o se trata de fazer disso um drama, situado na s\u00e9rie de uma cr\u00edtica, \u00e0s vezes excessivamente pessimista, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es do amor em nosso tempo. \u00c9 muito mais interessante pensar que o destino do amor pode, justamente, tornar-se Outro. Mas s\u00f3 com a condi\u00e7\u00e3o da metamorfose que a transfer\u00eancia permite, n\u00e3o para restituir os velhos v\u00e9us, in\u00fateis cada vez mais em sua operatividade, sen\u00e3o para introduzir uma dose de sem sentido, de consentir \u00e0 aus\u00eancia em que o amor se inscreve no sujeito. O amor pelo saber inconsciente pode fundar o v\u00e9u que conv\u00e9m quando \u00e9 conduzido ao limite de uma constru\u00e7\u00e3o. \u201cO que nossa pr\u00e1tica revela, nos revela,\u201d \u2013 \u00e9 a f\u00f3rmula que Lacan utiliza \u2013 \u201c\u00e9 que o saber inconsciente tem uma rela\u00e7\u00e3o fundamental com o amor.\u201d Quando as palavras cessam na impostura de pretender cernir o real, ent\u00e3o \u00e9 a\u00ed, nesse litoral que se abre, onde se pode escrever um significante novo sobre o amor. E um significante novo, tal como Lacan o isola na \u00faltima aula do semin\u00e1rio 24:<\/p>\n<blockquote>[&#8230;] n\u00e3o teria nenhuma esp\u00e9cie de sentido, isso talvez seria o que nos abriria ao que [&#8230;] eu chamo o real. Por que algu\u00e9m n\u00e3o tentaria formular um significante que, contrariamente ao uso que se faz dele atualmente, teria um efeito? Mas esse efeito j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 de sentido, justamente um significante novo det\u00e9m o sentido, a ancoragem da meton\u00edmia. J\u00e1 n\u00e3o responde o Outro e sim o corpo, responde o efeito que se depreende do impacto de lal\u00edngua sobre o parl\u00eatre.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O amor, lal\u00edngua e acontecimento de corpo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou concluir com uma breve reflex\u00e3o sobre o amor, o \u00f3dio e a segrega\u00e7\u00e3o. Sabemos que no n\u00edvel da economia ps\u00edquica, no sentido mais fundamental, o \u00f3dio \u00e9 primeiro que o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 pela via do equ\u00edvoco, ent\u00e3o, de <em>l\u2019une-b\u00e9vue<\/em>, que a interpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica pode ter um alcance real, oferecer um significante novo ao amor. E desativar at\u00e9 onde se pode as doses de \u00f3dio que se fixam na experi\u00eancia amorosa. O equ\u00edvoco implica numa opera\u00e7\u00e3o que vai mais al\u00e9m do Outro da linguagem. Na realidade, a partir do semin\u00e1rio <em>Mais, ainda<\/em> Lacan produz uma tors\u00e3o definitiva no que diz respeito \u00e0 linguagem e \u00e0 sua estrutura que aparecem como secund\u00e1rios e s\u00e3o derivados do que Lacan chama lal\u00edngua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lal\u00edngua pode ser definida como a palavra antes de seu ordenamento gramatical e lexicogr\u00e1fico, separada, portanto, da linguagem. Com esta condi\u00e7\u00e3o, Lacan prop\u00f5e uma inclus\u00e3o origin\u00e1ria e privilegiada do gozo, em detrimento da estrutura e de suas articula\u00e7\u00f5es. Essa inclus\u00e3o, essa irrup\u00e7\u00e3o de gozo seria anterior a toda constru\u00e7\u00e3o de sentido veiculada pelo funcionamento das identifica\u00e7\u00f5es. Seria pr\u00e9-identificat\u00f3ria, se podemos dizer assim. Com lal\u00edngua, precisamente, Lacan aponta para o que h\u00e1 antes da identifica\u00e7\u00e3o: se podemos diz\u00ea-lo desse modo, a unidades pr\u00e9-identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vemos, ent\u00e3o, como o corpo, a partir dessa nova perspectiva, est\u00e1 concebido desde o mais estritamente prim\u00e1rio, em um tempo anterior. Se o pensamos com cuidado, o que chamamos acontecimento de corpo revela, justamente, algo que \u00e9 solid\u00e1rio do conceito de lal\u00edngua. Um corpo que \u00e9 atravessado, impactado por lal\u00edngua. O que quero dizer com isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendo o acontecimento de corpo \u2013 essa irrup\u00e7\u00e3o de gozo, como define Jacques-Alain Miller \u2013 como um dos eixos para captar a muta\u00e7\u00e3o que se opera no \u00faltimo ensino de Lacan em rela\u00e7\u00e3o ao amor. O acontecimento de corpo nos permite, entre outras coisas, captar a l\u00f3gica de um deslocamento definitivo do campo da identifica\u00e7\u00e3o tal como a hav\u00edamos pensado classicamente. E isto em benef\u00edcio de situar um encontro anterior ao imagin\u00e1rio e anterior tamb\u00e9m \u00e0 pr\u00f3pria mordedura do significante no corpo. Se posso dizer desse modo, de maneira r\u00e1pida, um encontro com este artefato que chamamos de lal\u00edngua, onde impacta o afeto e se imprime no corpo. \u00c9 uma marca, um tom vital que se encarna e que faz la\u00e7o, e isso me parece fundamental para captar algo da experi\u00eancia de um novo amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos captar muito bem o destino dessa marca e sua formaliza\u00e7\u00e3o na experi\u00eancia cl\u00ednica. Por exemplo, \u00e9 o que se p\u00f5e em relevo na experi\u00eancia do passe, em que se verifica de maneiras sempre singulares como \u00e0 queda das identifica\u00e7\u00f5es pode suceder um acontecimento in\u00e9dito que impacta no corpo e que faz eco mais al\u00e9m de toda representa\u00e7\u00e3o. Dito de outra maneira, quando o corpo deixa de estar perturbado pelo <em>pathos<\/em> do sentido, quando o sentido cessa de ser a enfermidade do <em>parl\u00eatre<\/em>, o corpo se orienta de outra maneira no la\u00e7o social e tudo parece indicar que de uma maneira mais am\u00e1vel, mais direta, \u201cmais em conson\u00e2ncia\u201d \u2013 como disse \u00c9ric Laurent em seu livro <em>O avesso da biopol\u00edtica<\/em> \u2013 \u201ccom a <em>r\u00e9son<\/em>\u201d, ou seja, com o que ressoa, com o que faz eco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A emerg\u00eancia do equ\u00edvoco j\u00e1 n\u00e3o escreve um relato, \u00e9 um obst\u00e1culo, uma obje\u00e7\u00e3o \u00e0 meton\u00edmia, desorganiza todo o aparelho de linguagem. A pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o que oferece destitui o analista da cena, deixando o sujeito \u00e0 merc\u00ea de sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com lal\u00edngua. O que se obt\u00e9m nesse movimento vem de um significante insensato, fora de sentido, que cai da cadeia e se inscreve como uma letra que faz ressoar um afeto singular, faz ressoar, podemos diz\u00ea-lo assim, o Um do gozo. Entre outras coisas, desativa a vertente mortificante e de \u00f3dio, condiciona o amor em outro registro a partir da coloca\u00e7\u00e3o em funcionamento de um mecanismo que permite passar de um regime subjetivo sustentado por uma identifica\u00e7\u00e3o segregativa a um tipo de identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o segregativa. Com o paradoxo que isso implica, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 Um [diz Lacan no semin\u00e1rio 24] e isso quer dizer que h\u00e1 de todo modo afeto, esse afeto que chamei, segundo as unaridades, o suporte disso que \u00e9 preciso que eu reconhe\u00e7a, o \u00f3dio, enquanto que este \u00f3dio \u00e9 parente do amor, o amor que escrevi em meu t\u00edtulo deste ano \u2013<em> L\u2019insu que sait de l\u2019une-b\u00e9vue, es el amor (c\u2019est l\u2019amour)<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De um lado, est\u00e3o as experi\u00eancias que em um tratamento d\u00e3o lugar a um franqueamento, a momentos de destitui\u00e7\u00e3o do Outro. E isto concerne ao tempo de atravessamento das identifica\u00e7\u00f5es. \u00c9 um ponto-chave porque o que est\u00e1 posto em jogo s\u00e3o as formas de passagem do vazio ao furo. Ou seja, do enigma do desejo \u00e0 certeza do real, porque o que verdadeiramente est\u00e1 em jogo \u00e9 a aus\u00eancia, a aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual. E \u00e9 sobre essa aus\u00eancia que se constr\u00f3i um litoral, onde existe a possibilidade de escrever um dizer que pode tornar-se outra coisa a respeito do amor. \u00c9 quando o Outro fica despojado de qualquer semblante. Quando n\u00e3o h\u00e1 mais tra\u00e7o a que se identificar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o radical da quest\u00e3o, deste movimento, \u00e9 enfrentar-se ao real que implica o pr\u00f3prio gozo. A segrega\u00e7\u00e3o primeira e fundamental \u00e9 segregar a subst\u00e2ncia gozante que atravessa cada um, que habita em cada um. A matriz segregativa que veicula a identifica\u00e7\u00e3o \u00e9, antes de mais nada, contra Um, contra si mesmo, \u00e9 um modo de recusa do objeto ao qual se est\u00e1 identificado e que \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um mesmo. Um mesmo subjetivado como um resto n\u00e3o nome\u00e1vel, apanhado nas redes do Outro. E o que se segrega \u00e9 o gozo que est\u00e1 encapsulado na identifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o alimento privilegiado do \u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando as identifica\u00e7\u00f5es alojadas no Outro se evaporam, constata-se um efeito que concerne a uma modifica\u00e7\u00e3o profunda do amor e do la\u00e7o social em geral. Torna-o mais frouxo sem d\u00favida, pois a satisfa\u00e7\u00e3o tem a possibilidade de n\u00e3o ficar fixada ao \u00f3dio. Quero dizer que o la\u00e7o social que se funda a partir da dilui\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es implica um reconhecimento radical da alteridade do Outro. O gozo do outro n\u00e3o \u00e9 o gozo do Um. E esta diferen\u00e7a permite tomar a dist\u00e2ncia suficiente do Outro para que a diferen\u00e7a opere como o registro fundamental em que o la\u00e7o social se sustenta. Podemos construir a partir daqui uma vers\u00e3o muito distinta do que \u00e9 o comum. O comum tem a possibilidade de organizar-se a partir de um comum de solid\u00f5es. Uma por uma a solid\u00e3o que habita o humano produz um la\u00e7o mais aut\u00eantico que a de um conjunto homogeneizado pela identifica\u00e7\u00e3o. Embora este n\u00e3o seja um movimento puro. Em realidade, ao menos \u00e9 assim que entendo, nenhum movimento da an\u00e1lise, por mais radical que seja, \u00e9 puro, ou seja, sem restos. N\u00e3o obstante, a an\u00e1lise permite efetivamente desarticular, modificar o regime da segrega\u00e7\u00e3o at\u00e9 o m\u00e1ximo poss\u00edvel para cada um. E isto modifica as condi\u00e7\u00f5es de amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessante \u00e9 que esses restos, o que fica depois da experi\u00eancia, j\u00e1 n\u00e3o fazem mais parte de um todo. A partir dessas pe\u00e7as soltas desconectadas, temos a possibilidade de abordar o \u00f3dio sem ang\u00fastia, e o amor j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ignorante das condi\u00e7\u00f5es de gozo do Um e do outro. Acredito que isso seja fundamental na pr\u00f3pria transfer\u00eancia: mais vale pensar a transfer\u00eancia a partir do real do \u00f3dio do que em rela\u00e7\u00e3o ao amor ao saber. O amor ao saber pode correr o risco de converter-se em uma defesa a mais contra o \u00f3dio, que \u00e9 primeiro que o amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das condi\u00e7\u00f5es de pensar nisso que Lacan chamou de um novo amor \u2013 algo mais interessante para lidar com o \u00f3dio e contra a segrega\u00e7\u00e3o \u2013 concerne justamente a n\u00e3o perder de vista \u2013 na dire\u00e7\u00e3o da cura e na enuncia\u00e7\u00e3o que os psicanalistas inscrevemos no Outro social \u2013 os semblantes sob os quais o sujeito pretende refugiar-se, amparado nas promessas de gozo que se articulam a partir da fantasia, seja esta fantasia a de cada um, seja tamb\u00e9m a constru\u00e7\u00e3o de uma fantasia que mobiliza comunidades de gozo pela via dos ideais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso desgarrar os falsos v\u00e9us que disfar\u00e7am o real do \u00f3dio que habita em cada um. Desidentificar implica esburacar esses semblantes at\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel. E at\u00e9 onde um sujeito consente com isso. \u00c9 necess\u00e1rio despojar-se das boas formas, dos semblantes cativos pelas identifica\u00e7\u00f5es, para poder fazer um tratamento poss\u00edvel do \u00f3dio e abrir, dessa maneira, o vazio que conv\u00e9m para fazer do amor, como diz Lacan, uma experi\u00eancia mais digna. E isto, por que n\u00e3o, penso que se pode fazer ressoar em um conjunto amplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fico por aqui.<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Tradu\u00e7\u00e3o: Graciela Bessa<br \/>\nRevis\u00e3o: Elisa Alvarenga<\/h6>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"CkLdKu6p7V\"><p><a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/livraria\/produto\/mutacoes-do-laco-social-o-novo-nas-parcerias\/\">MUTA\u00c7\u00d5ES DO LA\u00c7O SOCIAL: O Novo Nas Parcerias.<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;MUTA\u00c7\u00d5ES DO LA\u00c7O SOCIAL: O Novo Nas Parcerias.&#8221; &#8212; Livraria Online EBP\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/livraria\/produto\/mutacoes-do-laco-social-o-novo-nas-parcerias\/embed\/#?secret=CkLdKu6p7V\" data-secret=\"CkLdKu6p7V\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Texto estabelecido a partir de confer\u00eancia realizada no \u00e2mbito da XXIV Jornada da EBP-MG, originalmente publicado em ALVARENGA, E., MAC\u00caDO, L. (Organizadoras). <em>Muta\u00e7\u00f5es do la\u00e7o social: o novo nas parcerias<\/em>. Belo Horizonte: EBP-MG, 2021, p.47-64.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;]<div class=\"norebro-icon-box-sc icon-box text-center\" \n\tid=\"norebro-custom-6a0f793216cbf\" \n\t \n\t>\n\n\t<div class=\"icon-wrap\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"linea-basic-sheet-pen\"><\/span>\n\t\t\t<\/div>\n\n\t<div class=\"content-wrap\">\n\n\t\t<div class=\"content-center with-full\">\n\t\t\t<div class=\"wrap\">\n\t\t\t\t<h3>DOWNLOAD PDF<\/h3>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<p class=\"description content-full\">\n\t\t\t\t\t<\/p>\n\n\t\t\t\t\t<a class=\"btn\" href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/O-Amor.-Sempre-Outro-Oscar-Ventura.pdf\"\n\t\t\t>\n\t\t\t\tRead more\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\n\t\t\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text] Oscar Ventura (EOL\/AMP) Vou orientar-me atrav\u00e9s de alguns recortes, pe\u00e7as soltas sobre o amor. Primeiro, proponho colocar em tens\u00e3o um bin\u00f4mio cl\u00e1ssico: amor e repeti\u00e7\u00e3o. Depois, explorar as coordenadas do amor e a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510317"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=510317"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510317\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":510679,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510317\/revisions\/510679"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=510317"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=510317"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=510317"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}