{"id":510315,"date":"2022-06-08T11:14:09","date_gmt":"2022-06-08T14:14:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/?p=510315"},"modified":"2022-06-09T10:11:29","modified_gmt":"2022-06-09T13:11:29","slug":"o-um-nao-esta-mais-aqui-o-levaram1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/o-um-nao-esta-mais-aqui-o-levaram1\/","title":{"rendered":"O um n\u00e3o est\u00e1 mais aqui. O levaram1"},"content":{"rendered":"[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text]\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><em>S\u00e9rgio de Mattos<\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frase que constitui o t\u00edtulo desse trabalho parece t\u00e3o atual que poderia ser tomada como uma poss\u00edvel varia\u00e7\u00e3o do sintagma \u201cOutro que n\u00e3o existe\u201d, ou da express\u00e3o \u201cModernidade l\u00edquida\u201d. Entretanto, ela pode ser encontrada em muitos cantos m\u00edsticos dos s\u00e9culos XVI-XVII, cantos que inauguram o relato desta perda do Um, e a hist\u00f3ria de seus retornos a outro lugar e de outras maneiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As caracter\u00edsticas do s\u00e9culo XXI parecem prop\u00edcias \u00e0 irrup\u00e7\u00e3o do gozo feminino e a nos conduzir a uma investiga\u00e7\u00e3o de seu paradigma: a m\u00edstica. O decl\u00ednio dos enquadres tradicionalmente ordenadores de nossa civiliza\u00e7\u00e3o ocidental abrem-se para uma estranha homologia entre a m\u00edstica, gozo feminino e contemporaneidade, e entre eles se produzem ecos. Em todos estes casos podemos apreciar certa ru\u00edna do simb\u00f3lico, sobretudo se nos acercarmos das configura\u00e7\u00f5es m\u00edsticas dos s\u00e9culos XVI e XVII, quando se abandona o universo medieval e passa-se \u00e0 modernidade deixando marcas nas subjetividades e na constru\u00e7\u00e3o dos corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste per\u00edodo, ao mesmo tempo em que a m\u00edstica se desenvolve e decai na Europa surge uma er\u00f3tica, n\u00e3o por uma coincid\u00eancia. As duas se referem a certa nostalgia da desapari\u00e7\u00e3o progressiva de Deus como \u00fanico objeto de amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir do s\u00e9culo XIII (amor cort\u00eas), uma lenta desmistifica\u00e7\u00e3o religiosa parece acompanhar-se de uma progressiva mitifica\u00e7\u00e3o amorosa. O Uno muda de cena. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais Deus, mas o outro, e em uma literatura masculina, a mulher. A palavra divina se substitui ao corpo amado, que escapa do mesmo modo que Deus, que se desvanece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A experi\u00eancia feminina resistiu melhor \u00e0 ru\u00edna simb\u00f3lica do que a masculina que considerava \u201cA Presen\u00e7a\u201d como uma vinda do Logos, enquanto a feminina atesta uma presen\u00e7a que se separa do Verbo. O Verbo mesmo deve nascer do vazio que o espera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim era a teologia dos renanos do s\u00e9culo XIII e do s\u00e9culo XIV. Sobrevive, entretanto, em Juan de La Cruz, um intelectual que se tornou muito escol\u00e1stico. Mas, j\u00e1 com ele e com Tereza de \u00c1vila (mais \u201cmoderna\u201d que ele) e depois dele, o modo de sentir e perceber a experi\u00eancia toma formas f\u00edsicas, relativas a uma capacidade simb\u00f3lica do corpo mais do que uma encarna\u00e7\u00e3o do Verbo. Esta maneira de sentir acaricia, fere, recorre a toda gama de percep\u00e7\u00f5es, chega a alcan\u00e7ar extremos que s\u00e3o ultrapassados. Deus \u201cfala\u201d cada vez menos, contudo v\u00e3o se tra\u00e7ando mensagens ileg\u00edveis sobre um corpo transformado em emblema ou em memorial gravado pelas dores do amor. A palavra fica fora deste corpo, escrito, mas indecifr\u00e1vel, para o qual um discurso er\u00f3tico come\u00e7a a buscar palavras. Como explica Michel de Certeau, enquanto a eucaristia (lugar central desse deslocamento) fazia do corpo uma efetua\u00e7\u00e3o da palavra, o corpo m\u00edstico deixa de ser transparente ao sentido, se opacifica, se converte na cena muda de um \u201ceu n\u00e3o sei\u201d, que o altera, um pa\u00eds perdido igualmente estranho aos sujeitos que falam e aos textos de uma verdade. Cito Tereza de \u00c1vila:<\/p>\n<blockquote><p><em>Dir-se-ia que o Esposo que est\u00e1 na s\u00e9tima morada, onde reside \u2013 fala por um<\/em><\/p>\n<p><em>modo sem articular palavras. Toda gente que est\u00e1 pelas outras moradas \u2013 isto \u00e9 os sentidos, a imagina\u00e7\u00e3o e as faculdades \u2013 n\u00e3o ousam mexer-se&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Aqui n\u00e3o h\u00e1 capacidade humana capaz de vislumbrar um fen\u00f4meno como este,<\/em><\/p>\n<p><em>nem compara\u00e7\u00e3o que sirva para explicar.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tereza vive uma tens\u00e3o entre o corpo falante \u2013 entregue ao Outro para que fale por si \u2013 e a ordem da escritura. Entre seus \u00eaxtases, sa\u00eddas de si, sonhos e loucuras e a escritura pedida e controlada por aqueles \u201chomens de grandes letras\u201d, confessores, conselheiros, te\u00f3logos, que opinavam sobre seus escritos e que como guardi\u00f5es encarregavam-se de lhe manter nos limites e lhe ajudavam a voltar \u00e0 ordem e a lutar contra os desvios. Seus livros s\u00e3o o produto desta luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste contexto onde Deus para de falar com palavras, mas o corpo fala de Deus, no interior daquilo que pode ser chamado de misticismo ib\u00e9rico<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, vemos surgir o lugar da a\u00e7\u00e3o na vertente m\u00edstica, em que se destaca o deslocamento dos corpos como possibilidade de compreens\u00e3o da alteridade, valorizando a dimens\u00e3o da solidariedade e fraternidade nas rela\u00e7\u00f5es sociais. Alia-se a uma pr\u00e1tica contemplativa um ativismo \u00e9tico de interven\u00e7\u00e3o no mundo. Os contornos dessa vertente do misticismo sublinham a import\u00e2ncia de qualidades intr\u00ednsecas excepcionais que singularizam o sujeito na busca da santifica\u00e7\u00e3o como elementos de transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Foi este misticismo disseminado em regi\u00f5es do antigo Imp\u00e9rio Portugu\u00eas que como no caso do Brasil, ofereceu uma matriz de organiza\u00e7\u00e3o da subjetividade que combinava pr\u00e1ticas de ascese e a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No umbral da modernidade, assinala-se um fim e um princ\u00edpio. Sua literatura especialmente os escritos dos m\u00edsticos oferece caminhos a quem \u201cpede indica\u00e7\u00f5es para perder-se\u201d e busca \u201ccomo n\u00e3o regressar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegando a este ponto do quadro acima exposto, caberia daqui por diante colocar algumas quest\u00f5es para avan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo: Em que medida o gozo feminino e o gozo m\u00edstico se recobrem? Certamente nem todas as mulheres s\u00e3o m\u00edsticas, existem tamb\u00e9m homens m\u00edsticos, al\u00e9m do mais nem todo gozo feminino \u00e9 necessariamente lido como um encontro com Deus. H\u00e1, entretanto, coordenadas comuns, ligadas a essa inst\u00e2ncia para o infinito, e o chamado de Deus para este encontro. Inst\u00e2ncia aqui entendido como insist\u00eancia, pedido urgente e repetido e foro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras quest\u00f5es: O que as homologias a\u00ed presentes podem nos servir para entendermos certos aspectos da contemporaneidade? Haveria hoje tamb\u00e9m bons caminhos para um digno \u201cperder-se\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que podem servir para entendermos a subjetividade e os corpos em nossa \u00e9poca? Nesse contexto entendendo que a palavra eros\u00e3o, no sentido grego \u201cmorder fora\u201d, pode nos servir para pensar um tempo, que como o nosso, talvez extinga uma er\u00f3tica, como \u201carte de viver\u201d o desencontro sexual, amea\u00e7ada por um desgaste produzido pelas novas tecnologias do corpo e as pol\u00edticas identit\u00e1rias. Podemos dizer que ambas mordem fora da quest\u00e3o crucial: onde est\u00e1 o gozo feminino?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra pergunta: Que elementos podemos obter da\u00ed que nos sirva para ajudar-nos na dire\u00e7\u00e3o do tratamento diante deste gozo sem forma, ilimitado que perturba as mulheres e os homens? Neste caso quem seriam estes \u201chomens letrados\u201d de hoje? Estar\u00edamos n\u00f3s psicanalistas entre eles?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por fim, ser\u00e1 que uma quest\u00e3o importante da nossa contemporaneidade n\u00e3o seria uma variante atualizada das perguntas, que surgem na m\u00edstica dos s\u00e9culos XVII-XVIII: O que \u00e9 um corpo? Onde ele est\u00e1? Onde est\u00e1 o um?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, que corpo queremos e como faz\u00ea-lo com alguns limites, de maneira a estar melhor nessa dimens\u00e3o ilimitada, silenciosa, quase muda, talvez murmurante, que aos corpos permanece convocando?<\/p>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Texto originalmente publicado no <em>Boletim Outras palavras<\/em>, n.14 do 1 de setembro de 2012 do <em>XIX Encontro Brasileiro do Campo freudiano<\/em>. Agradecemos ao autor sua am\u00e1vel autoriza\u00e7\u00e3o.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> A frase t\u00edtulo, eu a retirei excelente livro de Michel de Certeau, \u201cA F\u00e1bula M\u00edstica. S\u00e9culos XVI-XVIII\u201d. Rio de Janeiro. Forense. 2015., no qual atrav\u00e9s das informa\u00e7\u00f5es oferecidas por este historiador, baseio este trabalho.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Santa Teresa de Jesus. <em>Castelo interior ou moradas<\/em>. Paulus. SP. 1981, p. 144.<\/h6>\n<h6 style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Gon\u00e7alves, Margareth de Almeida. \u201cMisticismo e subjetividade feminina na \u00e9poca barroca\u201d. Teixeira Faustino (Org.) <em>Nas teias da delicadeza, Itiner\u00e1rios m\u00edsticos<\/em>. Paulinas. SP. 2006.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/6&#8243;]<div class=\"norebro-icon-box-sc icon-box text-center\" \n\tid=\"norebro-custom-6a0f793112aff\" \n\t \n\t>\n\n\t<div class=\"icon-wrap\">\n\t\t\t\t\t<span class=\"linea-basic-sheet-pen\"><\/span>\n\t\t\t<\/div>\n\n\t<div class=\"content-wrap\">\n\n\t\t<div class=\"content-center with-full\">\n\t\t\t<div class=\"wrap\">\n\t\t\t\t<h3>DOWNLOAD PDF<\/h3>\n\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t\t<\/div>\n\t\t\n\t\t<p class=\"description content-full\">\n\t\t\t\t\t<\/p>\n\n\t\t\t\t\t<a class=\"btn\" href=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-content\/uploads\/2022\/06\/Sergio-De-Mattos-O-um-nao-esta-mais-aqui-ultimo.pdf\"\n\t\t\t>\n\t\t\t\tRead more\t\t\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\n\t\t\n<\/div>[\/vc_column][\/vc_row]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;5\/6&#8243;][vc_column_text] S\u00e9rgio de Mattos A frase que constitui o t\u00edtulo desse trabalho parece t\u00e3o atual que poderia ser tomada como uma poss\u00edvel varia\u00e7\u00e3o do sintagma \u201cOutro que n\u00e3o existe\u201d, ou da express\u00e3o \u201cModernidade l\u00edquida\u201d&#8230;.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[144],"tags":[],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510315"}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=510315"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":510349,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/510315\/revisions\/510349"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=510315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=510315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2022\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=510315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}