{"id":364,"date":"2021-08-18T15:38:52","date_gmt":"2021-08-18T18:38:52","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/?p=364"},"modified":"2021-08-18T15:57:14","modified_gmt":"2021-08-18T18:57:14","slug":"a-crise-do-discurso-capitalista-esta-aberta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/a-crise-do-discurso-capitalista-esta-aberta\/","title":{"rendered":"A crise do discurso capitalista est\u00e1 aberta"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FA-crise-do-discurso-capitalista-esta-aberta-Fabian-Fajnwaks.pdf&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h6>Fabi\u00e1n Fajnwaks*<\/h6>\n<p>Saia do discurso capitalista e n\u00e3o do capitalismo:\u00a0 quando Jacques Lacan aponta que existe uma sa\u00edda, ele n\u00e3o empurra as multid\u00f5es para<em> Occupy Wall Street<\/em>, n\u00e3o prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um partido pol\u00edtico de psicanalistas e mant\u00e9m uma dist\u00e2ncia da possibilidade desta sa\u00edda da qual ele diz, com um toque de ironia, que &#8220;se for s\u00f3 para alguns, n\u00e3o constituir\u00e1 progresso&#8221;\u00b9, e o leitor de Lacan conhece a reserva que mant\u00e9m com qualquer id\u00e9ia de progresso.<\/p>\n<p>&#8220;O discurso do capitalista n\u00e3o quer nada com a castra\u00e7\u00e3o, ele exclui as coisas de amor&#8221;, diz Lacan em \u201cEu falo com as paredes\u201d. Sua avers\u00e3o \u00e0 perda o impulsiona a circular entre os quatro termos de sua arquitetura o que vem em seu lugar: gozo, e reduzir o amor \u00e0 categoria de mercadorias licenciadas. Para a psican\u00e1lise, o amor ocupa um lugar completamente diferente, o de uma embreagem, atrav\u00e9s da transfer\u00eancia, o que permite a cada um conhecer algo desta parte amaldi\u00e7oada que o habita e o impulsiona a conectar-se a este circuito: e isso, isso n\u00e3o \u00e9 nada&#8230; como disse Lacan. \u00c9 para inocular o &#8220;pst&#8221;\u00b2 para o qual Lacan nos dirige para que cada um ou\u00e7a como ele gosta de ter significado.<\/p>\n<p>Como sair deste discurso &#8220;estranhamente astuto&#8221; que constitui uma variante do discurso do mestre, no qual a impossibilidade que faz do gozo uma barreira desaparece, em benef\u00edcio de um circuito que produz um mais-de-gozar?<\/p>\n<p>Este circuito n\u00e3o constitui, estritamente falando, um discurso, no sentido que Lacan confere a este termo; mas como resultado deste circuito, cada um dos outros quatro discursos hoje se encontra relegado ao status de semblante, expondo uma inclina\u00e7\u00e3o para o retorno do discurso do mestre em pol\u00edtica e para a alian\u00e7a cada vez mais \u00edntima do discurso universit\u00e1rio com a ideologia neoliberal.<\/p>\n<p>\u00c9 do lado da rela\u00e7\u00e3o com o mais-de-gozar que surge uma sa\u00edda, pois o caminho que Lacan aponta \u00e9 o do santo que, ao contr\u00e1rio do capitalista que o acumula, descarta (<em>decharite<\/em>) o gozo, um neologismo que ressoa com a caridade e o descarte daquele que faz semblante. Este mais-de-gozar designa o gasto improdutivo no cora\u00e7\u00e3o do sintoma e sua dimens\u00e3o anti-utilit\u00e1ria, do qual uma cura obt\u00e9m sua extra\u00e7\u00e3o pela desseca\u00e7\u00e3o do gozo at\u00e9 o osso irredut\u00edvel do sinthoma. A sa\u00edda, portanto, \u00e9 realizada pela consuma\u00e7\u00e3o do que procura consumir-se a si mesmo na satisfa\u00e7\u00e3o paradoxal do sintoma. \u00c9 esta satisfa\u00e7\u00e3o que explora o circuito do capitalismo, pois o v\u00ednculo que une o sujeito com o objeto mais-de-gozar e porque se baseia no fantasma fundamental de cada um \u00e9 que ele n\u00e3o encontra barreira.<\/p>\n<p>Lacan elaborou o mais-de-gozar a partir da an\u00e1lise de Marx de mais-valia: a passagem do capitalismo industrial ao capitalismo financeiro reafirma este modelo: o capital circulante das finan\u00e7as que depende da produ\u00e7\u00e3o de commodities que d\u00e3o valor \u00e0s a\u00e7\u00f5es, fundos de pens\u00e3o e outros capitais flutuantes. Hoje chegamos ao que Yann Moulier-Boutang chamou de capitalismo cognitivo. Ser\u00e1 que Lacan previu, j\u00e1 em 1969, a extens\u00e3o do que ele chamou o mercado do conhecimento que surgiu com a crise do discurso universit\u00e1rio?<\/p>\n<p>Uma palavra se imp\u00f4s desde os anos 90 em economia: regulamenta\u00e7\u00e3o &#8211; dos fluxos financeiros \u00e0s empresas <em>off-shore<\/em>, ao com\u00e9rcio internacional. Se o efeito cumulativo do capital exige mecanismos reguladores para lidar com o excesso na origem das desigualdades crescentes, a psican\u00e1lise n\u00e3o defende a regula\u00e7\u00e3o do gozo, que s\u00f3 levaria \u00e0 sua preserva\u00e7\u00e3o, mas ao seu esvaziamento.<\/p>\n<p>Com o retorno ao est\u00e1gio de estados for\u00e7ados a administrar a atual crise sanit\u00e1ria, alguns autores anunciaram o fim do capitalismo. \u00c9 verdade que em 2008, durante a crise do <em>subprime<\/em>, vimos os estados socorrendo bancos; o economista Paul Krugman comentou ironicamente nas colunas do New York Times: &#8220;O estado \u00e9 um problema, mas \u00e0s vezes pode ser uma solu\u00e7\u00e3o&#8221;, o que foi contra os princ\u00edpios ultra-liberais da Escola de Chicago, que defendem a retra\u00e7\u00e3o do estado. Krugman lembrou o princ\u00edpio keynesiano de que o Estado interv\u00e9m para permitir que os mercados continuem a funcionar at\u00e9 que os tempos &#8220;normais&#8221; sejam retomados. Um jornalista lembrou recentemente esta regra de ouro do neoliberalismo: &#8220;em tempos de crise n\u00e3o h\u00e1 neoliberais&#8221; e sublinhou como com a pandemia &#8220;o dinheiro m\u00e1gico foi redescoberto, o estado social \u00e9 um ativo importante a preservar, seu financiamento n\u00e3o \u00e9 mais custos e encargos&#8221;\u2074. Os tempos de crise revelam assim os limites do sistema e o verdadeiro papel do Estado, que se tornou o seguro de vida dos mercados.<\/p>\n<p>Isto talvez sugira uma nova articula\u00e7\u00e3o p\u00f3s-pand\u00eamica em continuidade com a fundamental percebida por Keynes, onde o papel do Estado n\u00e3o \u00e9 aquele em que o neoliberalismo como discurso procura confin\u00e1-los. Ou seja, talvez no capitalismo seja necess\u00e1rio diferenciar entre o funcionamento real e eficaz dos mercados e o discurso neoliberal que vem a ser acrescentado a este funcionamento, e que n\u00e3o corresponde necessariamente \u00e0 articula\u00e7\u00e3o real e atual dos mercados e estados. A &#8220;crise do discurso capitalista&#8221; que Lacan anunciou em 1972\u2075 poderia muito bem ser alimentada por estas altern\u00e2ncias de crise e ressurgimento, como muitos economistas observam.<\/p>\n<p>Mais perto da cl\u00ednica psicanal\u00edtica de hoje, vale a pena perguntar sobre esta proposta fundamental de Lacan que &#8220;o capitalismo foraclui as coisas do amor&#8221; e como procura confisc\u00e1-las. Eva Illouz em seu trabalho\u2076 introduz uma nuance \u00e0s observa\u00e7\u00f5es de J. Lacan que se tornaram famosas, o que nos permite perceber, no fundo, como o capitalismo desde suas origens tamb\u00e9m tem buscado recuperar e instrumentalizar o discurso do amor. Esta perspectiva n\u00e3o exclui a &#8220;forcalus\u00e3o&#8221; (<em>Verwerfung<\/em>) denunciada por Lacan em 1972, mas nos permite prever efeitos sobre os modos de retorno no real nesta instrumentaliza\u00e7\u00e3o descrita por Illouz em suas obras. Da\u00ed seu interesse. Temos todos os dias testemunhos na cl\u00ednica desta foraclus\u00e3o, e a psican\u00e1lise pode muito bem ser um discurso, o pr\u00f3prio discurso, que oferece um lugar para recorrer e uma alternativa para lidar com esta aus\u00eancia fundamental que caracteriza nossa civiliza\u00e7\u00e3o de hoje. Isto devolvendo ao amor sua dignidade, al\u00e9m das formas rebaixadas de amor que Eva Illouz descreve e que est\u00e3o totalmente inscritas na foraclus\u00e3o denunciada por J. Lacan.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>*Fabian Fanjwaks \u00e9 um psicanalista sediado em Paris. Diretor da Revue La Cause du Desir, Membro da ECF, da EOL e da AMP. AE 2015 -2018.<\/h6>\n<h6>Tradu\u00e7\u00e3o por: Luiz Felipe\u00a0 Monteiro<\/h6>\n<h6>Publicado originalmente em \u00ab Fajnwaks, Fabi\u00e1n \u00ab\u00a0La crise du discours capitaliste est ouverte \u00bb. IN\u00a0: La Cause du D\u00e9sir, n. 105, 2020, p.6-7. Em espanhol em: Fajnwaks, Fabi\u00e1n , La crisis del discurso capitalista est\u00e1 abierta. IN: La libertad de la pluma, Revista Digital N\u00b014 \u2013 A\u00f1o 4, Junho 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/lalibertaddepluma.org\/fabian-fajnwaks-la-crisis-del-discurso-capitalista-esta-abierta\/\">http:\/\/lalibertaddepluma.org\/fabian-fajnwaks-la-crisis-del-discurso-capitalista-esta-abierta\/<\/a><\/h6>\n<h6>O boletim\u00a0<em>Bendeg\u00f3\u00a0<\/em>agradece gentilmente a autoriza\u00e7\u00e3o da autor.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>Notas:<\/h6>\n<h6>1 Lacan, J &#8220;Televis\u00e3o&#8221;, Outros Escritos, Buenos Aires, Paidos, 2012, p. 546.<\/h6>\n<h6>2 O &#8220;pst&#8221;, ou seja, a peste, que Lacan se refere \u00e0 famosa anedota comentada por Jones de Freud chegando \u00e0 Am\u00e9rica e dizendo &#8220;n\u00f3s trazemos a peste para voc\u00ea&#8221;.<\/h6>\n<h6>3 Krugman P., &#8220;Crisis Endgame&#8221;, The New York Times, 18 de setembro de 2008, dispon\u00edvel online.<\/h6>\n<h6>4 Godin R., &#8220;Emmanuel Macron, Saint Paul of the welfare state&#8230;&#8221;, Mediapart, 13 de mar\u00e7o de 2020, dispon\u00edvel online.<\/h6>\n<h6>5 Lacan J., &#8220;Sobre o discurso psicanal\u00edtico&#8221;. Discurso na Universidade de Mil\u00e3o, 12 de maio de 1972&#8243;, publicado na obra bil\u00edng\u00fce : Lacan na It\u00e1lia 1953-1978. Na It\u00e1lia, Lacan, Mil\u00e3o, La Salamandra, 1978, dispon\u00edvel online.<\/h6>\n<h6>6 Illouz E., The End of Love: A Sociology of Negative Relations trad. O Fim do Amor. Pesquisa sobre um desconcerto contempor\u00e2neo, Paris, Seuil, 2020. Illouz E., Why Love Hurts: A Sociological Explanation trade. A experi\u00eancia do amor na modernidade, Paris, Seuil, 2012. Illouz E., Cold Intimacies: The Making of Emotional Capitalism trad. The Feelings of Capitalism, Paris, Seuil, 2006.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FA-crise-do-discurso-capitalista-esta-aberta-Fabian-Fajnwaks.pdf&#8221;][vc_column_text] Fabi\u00e1n Fajnwaks* Saia do discurso capitalista e n\u00e3o do capitalismo:\u00a0 quando Jacques Lacan aponta que existe uma sa\u00edda, ele n\u00e3o empurra as multid\u00f5es para Occupy Wall Street, n\u00e3o prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um partido pol\u00edtico de psicanalistas e mant\u00e9m uma dist\u00e2ncia da possibilidade desta sa\u00edda da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-364","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-de-orientacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/364","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=364"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/364\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":377,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/364\/revisions\/377"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}