{"id":259,"date":"2021-08-17T10:16:02","date_gmt":"2021-08-17T13:16:02","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/?p=259"},"modified":"2021-09-15T09:33:49","modified_gmt":"2021-09-15T12:33:49","slug":"o-gozo-de-lalingua-e-o-discurso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/o-gozo-de-lalingua-e-o-discurso\/","title":{"rendered":"O gozo de\u00a0lal\u00edngua\u00a0e o discurso"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FO-gozo-de-lalingua-e-o-discurso-Hebe-Tizio.pdf&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h6 class=\"big titulo\">Hebe Tizio <span class=\"black\">(ELP, Barcelona)<\/span><\/h6>\n<p>No<em>\u00a0Semin\u00e1rio III<\/em><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>\u00a0Lacan afirma que antes de fazer o diagn\u00f3stico de psicose devemos exigir a presen\u00e7a dos transtornos de linguagem. O ensino de Lacan transitou por diferentes momentos e se pode afirmar que sempre se preocupou com o tema em toda a sua amplitude: linguagem, discurso e escrita como constantes, tomaram diferentes matizes. Entretanto, h\u00e1 algo que se mant\u00e9m desde o in\u00edcio, um ponto freudiano tomado por Guiraud e Lacan desde muito cedo, nas palavras atuais: o gozo de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0e o discurso.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Jacques Lacan, como psiquiatra, interessou-se pela linguagem e pela escrita<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>\u00a0na psicose. A psiquiatria francesa daquele momento se preocupava com a rela\u00e7\u00e3o entre linguagem e loucura para encontrar uma nova perspectiva diagn\u00f3stica que permitisse descobrir seu mecanismo. Tratava-se de uma reflex\u00e3o fenomenol\u00f3gica e de uma causalidade org\u00e2nica.<\/p>\n<p>Em \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica\u201d,<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>\u00a0Lacan assinala que o problema da loucura n\u00e3o pode se separar da linguagem, da palavra como n\u00f3 de significa\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma articula\u00e7\u00e3o da estrutura ps\u00edquica com a estrutura da linguagem considerada a partir da significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEnveredemos por esse caminho para estudar as significa\u00e7\u00f5es da loucura, como nos convidam a fazer as modalidades originais que nela mostra a linguagem: as alus\u00f5es verbais, as rela\u00e7\u00f5es cabal\u00edsticas, os jogos de homon\u00edmia e os trocadilhos que cativaram o exame de um Guiraud \u2013 e, direi eu, o toque de singularidade cuja resson\u00e2ncia \u00e9 preciso saber ouvir numa palavra para detectar o del\u00edrio, a transfigura\u00e7\u00e3o do termo na inten\u00e7\u00e3o inef\u00e1vel, a fixa\u00e7\u00e3o da ideia no semantema (que aqui, precisamente, tende a se degradar em signo), os h\u00edbridos do vocabul\u00e1rio, o c\u00e2ncer verbal do neologismo, o naufr\u00e1gio da sintaxe, a duplicidade da enuncia\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m a coer\u00eancia que equivale a uma l\u00f3gica, a caracter\u00edstica que, pela unidade de um estilo nas estereotipias, marca cada forma de del\u00edrio: tudo isso pelo qual o alienado, atrav\u00e9s da fala ou da pena, comunica-se conosco.\u201d<\/p>\n<p>Trata-se de um par\u00e1grafo que requer um estudo aprofundado. A refer\u00eancia a Guiraud \u00e9 de \u201c<em>Les formes verbales de l\u2019interpr\u00e9tation d\u00e9lirante<\/em>\u201d e j\u00e1 havia sido citada por Lacan em sua tese. Em \u201cFormula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica\u201d, Lacan acrescenta \u00e0s variedades de Guiraud as dificuldades com a sintaxe e a duplicidade da enuncia\u00e7\u00e3o que apontam para o que ser\u00e3o os percursos posteriores e o localiza no marco comunicacional.<\/p>\n<p>Para Guiraud, as formas verbais da interpreta\u00e7\u00e3o delirante deviam ser abordadas desde o ponto de vista da cl\u00ednica e do mecanismo psicol\u00f3gico. Clinicamente, ele formula as seguintes variedades: alucina\u00e7\u00f5es verbais, rela\u00e7\u00f5es cabal\u00edsticas, homon\u00edmias, jogo de palavras. Com rela\u00e7\u00e3o ao mecanismo psicol\u00f3gico, trata de localizar os que s\u00e3o formadores das interpreta\u00e7\u00f5es verbais. E estabelece a diferen\u00e7a entre as interpreta\u00e7\u00f5es com justificativa l\u00f3gica que t\u00eam certas analogias com algumas teorias paracient\u00edficas e as interpreta\u00e7\u00f5es sem justificativa l\u00f3gica.<\/p>\n<p>No primeiro grupo se observam as seguintes carater\u00edsticas: a polariza\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o de palavras pelo estado afetivo; a perda localizada do sentido cr\u00edtico; um ensaio de harmoniza\u00e7\u00e3o entre a nova certeza afetiva e a intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>No segundo, trata-se de interpretadores verbais que n\u00e3o constroem nenhum sistema. A linguagem torna-se silog\u00edstica, mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma sistematiza\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s da mesma, h\u00e1 apenas a certeza da evid\u00eancia.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, a influ\u00eancia freudiana se faz presente. Guiraud assinala que \u00e9 a intensidade do potencial afetivo o que domina nesses processos. As distintas variedades da interpreta\u00e7\u00e3o s\u00e3o relacionadas com a modalidade do discurso em sua vertente sistem\u00e1tica e assinala que, quando domina a intensidade do potencial afetivo, h\u00e1 uma menor organiza\u00e7\u00e3o l\u00f3gica. Este ponto ser\u00e1 uma constante para Lacan e aparecer\u00e1 de diferentes maneiras, de acordo com o momento de seu ensino.<\/p>\n<p>**<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>O Semin\u00e1rio III<\/em>, Lacan far\u00e1 do Nome-do-Pai a ancoragem subjetiva com a estrutura da linguagem; por isso escreve em \u201cDe uma quest\u00e3o preliminar a todo tratamento poss\u00edvel de psicose\u201d, que a neurose ou a psicose dependem do que tem lugar no Outro. Lacan assinala que a partir do momento que o sujeito fala, existe o Outro que \u00e9, aqui, o Outro da linguagem. Na psicose ele est\u00e1 exclu\u00eddo e o que concerne ao sujeito \u00e9 dito pelo pequeno outro. O Nome-do-Pai \u00e9 o significante que, no Outro, funciona como lei. Lacan separa os transtornos de linguagem dos transtornos que aparecem no plano imagin\u00e1rio pela aus\u00eancia de significa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica; assim faz o diagn\u00f3stico da linguagem delirante pelo funcionamento das palavras e o qualifica pela intensidade de gozo em jogo. Trata-se de um \u201csabor particular (\u2026) onde certas palavras ganham um destaque especial, uma densidade que se manifesta algumas vezes na pr\u00f3pria forma do significante.\u201d<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>\u00a0Refere-se com isso aos neologismos na paranoia, aos dois fen\u00f4menos: a intui\u00e7\u00e3o e a f\u00f3rmula. A \u00eanfase especial das palavras permite falar de palavras-chaves. No \u00e2mbito do significante, em seu car\u00e1ter material, o neologismo, com os dois tipos de fen\u00f4menos mencionados, det\u00e9m a significa\u00e7\u00e3o. A intui\u00e7\u00e3o tem um car\u00e1ter pleno que inunda o sujeito e a f\u00f3rmula se repete como estribilho. No \u00e2mbito da significa\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 remiss\u00e3o, \u00e9 uma significa\u00e7\u00e3o irredut\u00edvel, \u00e9 o peso do inef\u00e1vel.<\/p>\n<p>Lacan prop\u00f5e n\u00e3o tomar isso como outra linguagem, mas tratar a economia do discurso, que \u00e9 o que permite afirmar que se trata de um del\u00edrio:<\/p>\n<p>\u2013 a rela\u00e7\u00e3o de significa\u00e7\u00e3o a significa\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>\u2013 a rela\u00e7\u00e3o com o ordenamento l\u00f3gico que \u00e9 comum no discurso.<\/p>\n<p>Novamente encontramos a dupla refer\u00eancia: o funcionamento das palavras em rela\u00e7\u00e3o ao gozo e a rela\u00e7\u00e3o do ordenamento \u00e0 lei. A met\u00e1fora delirante, na falta da met\u00e1fora paterna, estabilizaria a rela\u00e7\u00e3o significante\/significado. Nesse momento, a prolifera\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria responde \u00e0 falha do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>O ensino de Lacan com o ponto de basta, o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0e a distin\u00e7\u00e3o enunciado\/enuncia\u00e7\u00e3o, fornece elementos para localizar as particularidades do discurso, e especialmente, no caso da psicose, como fora do discurso. \u00c9 o efeito da castra\u00e7\u00e3o foraclu\u00edda que impede o ponto de basta, a extra\u00e7\u00e3o de objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0e a divis\u00e3o enunciado\/enuncia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>assinalou os efeitos da falta de ponto de basta no discurso em rela\u00e7\u00e3o ao fen\u00f4meno de \u201cnevoeiro\u201d que impede o ajustamento do significado gerando a dimens\u00e3o de eterno presente. Na psicose h\u00e1 a impossibilidade de mem\u00f3ria porque a altera\u00e7\u00e3o do eixo temporal impede a historiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desse modo, um dos registros discursivos, que \u00e9 poder falar do passado, fica esmagado<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa \u2018hist\u00f3ria e \u2018relevo\u2019, n\u00e3o \u00e9 o que se conta, mas o que se mostra das marcas do funcionamento. Lacan precisou que o relevo lhe d\u00e1 o mais de gozo,<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a>\u00a0que inclui a castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso recordar que \u00e9 a experi\u00eancia com a psicose que leva Lacan a extrair a fun\u00e7\u00e3o do objeto olhar e o objeto voz. Miller<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>\u00a0precisa que \u201cessa fala amarra um ao outro: o significado \u2013 ou melhor, o \u201ca significar\u201d, aquilo que se deve significar \u2013 e o significante\u201d. Essa amarra\u00e7\u00e3o comporta, sempre como terceiro, a voz, \u00e1fona e fora do sentido. A voz \u00e9 uma dimens\u00e3o de toda a cadeia significante. \u00c9 preciso recordar sobre, este ponto, o exemplo\u00a0<em>Porca!<\/em>\u00a0do\u00a0<em>Semin\u00e1rio III<\/em>.<\/p>\n<p>A Sra. M. apresenta um discurso coerente, poderia se dizer excessivamente culto, mas carente de relevos, sem matizes. As palavras tomam um s\u00f3 sentido e ela se inquieta frente aos jogos de linguagem. A literalidade \u00e9 o mecanismo para fixar o discurso, \u201cse digo a, \u00e9 a\u201d e todo o deslizamento a incomoda porque o outro n\u00e3o cumpre com o que diz. Ou seja, se presentifica, de alguma maneira, o gozo do Outro.<\/p>\n<p>Lacan j\u00e1 havia assinalado no<em>\u00a0Semin\u00e1rio XVII<\/em>\u00a0que o tecido tem relevo, ele pega algo,<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>\u00a0\u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o l\u00f3gica que se enuncia e \u00e9 pela enuncia\u00e7\u00e3o que se mostra o funcionamento.<\/p>\n<p>A enuncia\u00e7\u00e3o \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios ditos e permite a localiza\u00e7\u00e3o do dizer, trata-se do que ressalta, do que tem realce. Em certa medida pode se fazer equivaler a enuncia\u00e7\u00e3o a uma vers\u00e3o sobre o real porque, embora sustente um enunciado, ao mesmo tempo o descompleta e toca o corpo. A dist\u00e2ncia enunciado\/enuncia\u00e7\u00e3o faz existir o A barrado. Na psicose h\u00e1 muitos matizes que evidenciam as dificuldades com essa quest\u00e3o. O Sr. B., uma paranoia muito discreta, dedica-se \u00e0 suposta enuncia\u00e7\u00e3o do outro enquanto a sua aparece totalmente apagada.<\/p>\n<p>****<\/p>\n<p>Nos anos 70, Lacan diferencia as duas vertentes da linguagem \u2013 a da palavra e a do signo \u2013, e elabora com\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0uma l\u00edngua que n\u00e3o \u00e9 para a comunica\u00e7\u00e3o, mas para o gozo. A linguagem \u00e9 um derivado de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>, que \u00e9 definida como a palavra antes de ser ordenada gramatical e lexicograficamente.\u00a0<em>Lal\u00edngua<\/em>\u00a0\u00e9 a palavra disjunta da estrutura da linguagem. Cabe recordar a l\u00edngua fundamental de Schreber feita de neologismos.<\/p>\n<p>A divis\u00e3o da linguagem em\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0e o v\u00ednculo social recoloca, para al\u00e9m do Nome-do-Pai, o elemento regulador. O fora do discurso da psicose questiona o v\u00ednculo social que une a singularidade de\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>\u00a0ao elemento estandardizado. Pode-se dizer que o discurso do mestre tenta \u201cnormalizar\u201d\u00a0<em>lal\u00edngua<\/em>.<\/p>\n<p>O \u00faltimo ensino faz do n\u00f3 uma escrita desenganchada da palavra. Mas a escrita sempre esteve presente para Lacan. Em \u201cEscritos inspirados: esquizografia\u201d,<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>\u00a0os autores partem do conceito de \u201cesquizofasia\u201d para assinalar que em alguns casos ela s\u00f3 se manifesta na linguagem escrita. A concep\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>d\u00e9ficit<\/em>\u00a0aparece claramente explicitada: quando o pensamento \u00e9 pobre, o automatismo supre o\u00a0<em>d\u00e9ficit<\/em>\u00a0e \u00e9 julgado como v\u00e1lido porque apela para uma emo\u00e7\u00e3o. Contudo, estabelece-se a rela\u00e7\u00e3o com o surrealismo e o reconhecimento do valor po\u00e9tico de certos escritos. No panorama da concep\u00e7\u00e3o deficit\u00e1ria se inscreve um \u2018a mais\u2019 de criatividade. Essa ser\u00e1 a linha que Lacan seguir\u00e1 em sua tese. De fato, no caso Aim\u00e9e, ele analisa seus escritos e concede a eles um valor cl\u00ednico que permitiria estudar as rela\u00e7\u00f5es do del\u00edrio com a personalidade e, neste caso, um valor liter\u00e1rio reconhecido que se extingue posteriormente.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise do texto de Schreber, Lacan confere um car\u00e1ter de testemunho que se aproxima, por seu rigor, ao discurso cient\u00edfico, enquanto no texto de Wittgenstein localiza a ferocidade psic\u00f3tica. Assinala que foi not\u00e1vel a universidade inglesa ter dado a ele um lugar a parte, isolado, que lhe permitia voltar e prosseguir \u201c<em>esse discurso implac\u00e1vel<\/em>\u201d<a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a>\u00a0para salvar a verdade.<\/p>\n<p>A leitura de Joyce feita por Lacan \u00e9 fundamental. Em Joyce, ele assinala que sua escrita teria a fun\u00e7\u00e3o de sintoma, no sentido borromeano, ao enodar os registros real, simb\u00f3lico e imagin\u00e1rio com um quarto elo. O uso da escrita expressa sua singularidade sintom\u00e1tica at\u00e9 o ponto de produzir o ileg\u00edvel. O estilo de Joyce com a escrita faz com que se desarticule a l\u00edngua inglesa, ele a tritura. Essa escrita tem por fun\u00e7\u00e3o corrigir o erro de seu n\u00f3, fazer um Ego com ele e manter uma rela\u00e7\u00e3o muito particular com a pr\u00f3pria imagem. Isso coloca sua dificuldade com o imagin\u00e1rio e faz com que real e simb\u00f3lico entrem em coalesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Joyce d\u00e1 \u00e0 l\u00edngua um uso distinto do ordin\u00e1rio. Por meio da escrita, decomp\u00f5e a palavra. Lacan abre a quest\u00e3o sobre se se trata de se liberar do fen\u00f4meno palavreiro ou se deixar invadir por propriedades fonem\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o do escrito como opera\u00e7\u00e3o sobre o gozo p\u00f5e em primeiro plano a quest\u00e3o do estilo, para a qual Lacan teve uma sensibilidade desde sempre, com seu trabalho sobre o problema do estilo e as formas paranoicas da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Os casos fora do discurso s\u00e3o os que mostram que, embora a linguagem seja uma defesa que se pode utilizar de diferentes maneiras, o discurso permite o la\u00e7o social e ajuda com um certo saber fazer que d\u00e1 uma apar\u00eancia normalizada.<\/p>\n<p>Esta nova parti\u00e7\u00e3o reatualiza o que foi proposto por Lacan desde o princ\u00edpio: a rela\u00e7\u00e3o da singularidade do uso da l\u00edngua com o v\u00ednculo social que implica o discurso comum. Deste modo, aparece a ideia de que todo mundo delira, por\u00e9m, e seguindo Lacan, trata-se sempre de ver a \u201ceconomia do discurso\u201d e os efeitos criadores e de inven\u00e7\u00e3o para manter a tens\u00e3o entre esses dois aspectos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>(Tradu\u00e7\u00e3o: Fl\u00e1via Cera. Releitura: Frederico Feu)<\/h6>\n<h6>Texto originalmente publicado em TIZIO, Hebe, (ELP)O gozo de <em>lal\u00edngua <\/em>e o discurso. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/\">https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/<\/a><\/h6>\n<h6>O boletim\u00a0<em>Bendeg\u00f3\u00a0<\/em>agradece gentilmente a autoriza\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>Lacan, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro III, as psicoses<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 113.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>Cabe recordar os seguintes trabalhos de Lacan: \u201cEscritos inspirados: esquizografia\u201d, feito em colabora\u00e7\u00e3o; sua tese \u201cDa psicose paranoica e suas rela\u00e7\u00f5es com a personalidade\u201d; e\u00a0<em>\u201c<\/em>O problema do estilo e a concep\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica das formas paranoicas da experi\u00eancia\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a>Lacan, J. Formula\u00e7\u00f5es sobre a causalidade ps\u00edquica. Em:\u00a0<em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, p. 168, 1998.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a>Lacan, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro III, as psicoses<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 43.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref5\" name=\"_edn6\">[v]<\/a> Miller, J.-A.\u00a0<em>Os casos raros, inclassific\u00e1veis da cl\u00ednica psicanal\u00edtica. A conversa\u00e7\u00e3o de Arcachon<\/em>. S\u00e3o Paulo: Biblioteca Freudiana, 1998, p. 128-129.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a>Lacan, J. Semin\u00e1rio XXI. Les non-dupes errent. Aula de 13 de novembro de 1973. In\u00e9dito<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a><em>Idem<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a>Miller, J.-A. Jacques Lacan e a voz. Em:\u00a0<em>Opc\u0327a\u0303o Lacaniana online nova se\u0301rie<\/em>, n. 11. Julho de 2013 Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_11\/voz.pdf<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a>Lacan, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro XVII, o avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 56.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a>Lacan, J., Migault, P; L\u00e9vy-Valensi J. \u201c<em>\u00c9crits inspir\u00e9s : Schizographie<\/em>\u201d, en: Annales Medico-psychologiques, T.II, pp.508-22.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/congresoamp2018.com\/pt-pt\/textos-del-tema\/goce-lalengua-discurso\/#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a>Lacan, J.\u00a0<em>O Semin\u00e1rio, livro XVII, o avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1992, p. 66.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FO-gozo-de-lalingua-e-o-discurso-Hebe-Tizio.pdf&#8221;][vc_column_text] Hebe Tizio (ELP, Barcelona) No\u00a0Semin\u00e1rio III[i]\u00a0Lacan afirma que antes de fazer o diagn\u00f3stico de psicose devemos exigir a presen\u00e7a dos transtornos de linguagem. O ensino de Lacan transitou por diferentes momentos e se pode afirmar que sempre se preocupou com o tema em toda a sua [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-259","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos-de-orientacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=259"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":432,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/259\/revisions\/432"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}