{"id":248,"date":"2021-08-17T09:28:40","date_gmt":"2021-08-17T12:28:40","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/?p=248"},"modified":"2021-08-17T14:51:51","modified_gmt":"2021-08-17T17:51:51","slug":"jacques-lacan-e-a-clinica-do-consumo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/jacques-lacan-e-a-clinica-do-consumo\/","title":{"rendered":"Jacques Lacan e a cl\u00ednica do consumo"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FJacques-Lacan-e-a-clinica-do-consumo-Marcia-Rosa.pdf&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h6><em>M<\/em><em>\u00e1<\/em><em>r<\/em><em>cia<\/em> <em>Rosa*<\/em><\/h6>\n<h6><strong>R<\/strong><strong>esumo<\/strong><\/h6>\n<h6>O texto destaca e percorre os principais momentos nos quais Jacques Lacan se deteve sobre a quest\u00e3o do consumo e, ao faz\u00ea-lo, desdobrou tr\u00eas pontos. Inicialmente, o consumo articula-se \u00e0 \u00e9tica e \u00e0 constata\u00e7\u00e3o da impossibilidade de pens\u00e1-lo apenas com a no\u00e7\u00e3o de valor de uso; aquelas de valor de gozo e valor de desejo tornam-se necess\u00e1rias. A seguir, a associa\u00e7\u00e3o do consumo ao campo pulsional, especialmente ao objeto oral e \u00e0s fantasias de devora\u00e7\u00e3o, evidencia o deslizamento do \u201cconsumismo\u201d \u00e0 \u201cconsumi\u00e7\u00e3o\u201d, que leva o sujeito da posi\u00e7\u00e3o de consumidor \u00e0 de objeto consumido. Finalmente, o consumo \u00e9 tratado nos \u00faltimos textos de Lacan atrav\u00e9s de uma pequena muta\u00e7\u00e3o no Discurso do Mestre que faz surgir o Discurso do Capitalista.<\/h6>\n<h6><strong>Palavras-chave:<\/strong> consumo, \u00e9tica, puls\u00e3o, discurso do capitalista.<\/h6>\n<h6><strong>A<\/strong><strong>bstract<\/strong><\/h6>\n<h6>Jacques Lacan and the consumption clinic<\/h6>\n<h6><em>The text highlights and discusses the key moments in which Jacques Lacan stood on the issue of consumption and, by doing so, deploys three points. Initially, consumption is articulated to ethics and to the impossibility of thinking it only through the notion of value; the notions of jouissance and desire value become necessary. Next, the association of consumption to trieb, especially to the oral object and to devouring fantasies, shows the change of \u201cconsumerism\u201d to \u201cconsumption\u201d that leads the subject from a position of consumer to one of an object to be consumed. Finally, consumption is treated in Lacan\u2019s last texts through a small mutation in the Master\u2019s Discourse that gives rise to the Capitalist Discourse.<\/em><\/h6>\n<h6><em><strong>Keywords:<\/strong> consumption, ethic, trieb, capitalist discourse.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/h6>\n<h6>* Psic\u00f3loga; Psicanalista; Membro da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise; Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); P\u00f3s-Doutora em Teoria Psicanal\u00edtica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Professora Adjunta do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/h6>\n<hr \/>\n<p>No final do ano de 1974, ao fazer sua terceira confer\u00eancia na cidade de Roma, Jacques Lacan ([1974] 1980) provocativamente interrogou se a psican\u00e1lise seria um sintoma. Dizendo, logo a seguir, n\u00e3o formular perguntas cuja resposta n\u00e3o soubesse de antem\u00e3o, ele definiu o sintoma como algo que vem do real. Para explic\u00e1-lo, disse que o sintoma apresenta-se como um peixinho cuja boca voraz n\u00e3o se fecha se n\u00e3o se lhe p\u00f5e sentido sobre os dentes. Ent\u00e3o, de duas uma: ou ele cresce e multiplica, ou ele morre. Diante das duas possibilidades, melhor seria que ele morresse, afirma.<\/p>\n<p>N\u00e3o sem mencionar Freud ([1916-1917] 1974) nas suas \u201cConfer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre a psican\u00e1lise\u201d, Lacan observou que \u201co sentido do sintoma n\u00e3o \u00e9 aquele com que se o alimenta para a sua prolifera\u00e7\u00e3o ou extin\u00e7\u00e3o, o sentido do sintoma \u00e9 o real\u201d (Lacan, [1974] 1980: 168), real entendido como aquilo que \u201cimpede que as coisas andem no sentido em que d\u00e3o conta de si mesmas de ma- neira satisfat\u00f3ria\u201d (Lacan, [1974] 1980: 168). Em resposta \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o inicial, prop\u00f4s que o sentido do sintoma depende do futuro do real, ou seja, do \u00eaxito da psican\u00e1lise. Se o que se pede da psican\u00e1lise \u00e9 que nos libere do real e do sintoma, se ela triunfar nisso n\u00e3o teremos muito a esperar sen\u00e3o um retorno da \u201cverdadeira religi\u00e3o\u201d (Lacan, [1974] 1980: 168). Caso seja bem-sucedida, ela pr\u00f3pria se extin- guir\u00e1, restando apenas como \u201cum sintoma esquecido\u201d (Lacan, [1974] 1980: 169). Portanto, a conclus\u00e3o de Lacan \u00e9 de que tudo depende da insist\u00eancia do real, e para que ele insista \u00e9 preciso que a psican\u00e1lise fracasse no que se lhe pede. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, ela est\u00e1 no bom caminho e tem grandes probabilidades de continuar sendo um sintoma.<\/p>\n<p>Depois de ter localizado a psican\u00e1lise em rela\u00e7\u00e3o ao sentido e \u00e0 religi\u00e3o, o autor do texto \u201cA terceira\u201d (Lacan, [1974] 1980) interrogou a sua rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ci\u00eancia e, tamb\u00e9m a\u00ed, destacou a import\u00e2ncia do sintoma. Ao observar que para a maioria das pessoas a ci\u00eancia se reduz \u00e0quilo que ela oferece, isto \u00e9, se reduz aos \u201cartefatos de consumo: a televis\u00e3o, a viagem \u00e0 lua, e mais uma vez a viagem \u00e0 lua\u201d (Lacan, [1974] 1980: 186), o psicanalista enfatizou que o futuro da psican\u00e1lise depende do que vai ocorrer com esse real, isto \u00e9, depende \u201cde que os <em>gadgets <\/em>se imponham verdadeiramente\u201d (Lacan, [1974] 1980: 186). Quanto a isso, continua, \u201cdevo dizer que me parece pouco prov\u00e1vel. N\u00e3o conseguiremos verdadeiramente que o <em>gadget <\/em>n\u00e3o seja um sintoma, pois pelo momento o \u00e9 muito evidentemente\u201d (Lacan, [1974] 1980: 186).<\/p>\n<p>Definidos como objetos fabricados pela ci\u00eancia, a presen\u00e7a marcante dos <em>gadgets <\/em>(uma g\u00edria eletr\u00f4nica que se refere a objetos de uso pr\u00e1tico no cotidiano, tal como celulares, <em>smartphones<\/em>, etc.) na nossa contemporaneidade abre um debate sobre o consumo, sobre os artefatos de consumo, se quisermos manter o termo com o qual o psicanalista franc\u00eas se refere a eles. Em vista desses coment\u00e1rios feitos em meados dos anos setenta, interessa-nos rastrear o modo como Lacan trata a quest\u00e3o do consumo, cujo tema apresenta-se desde os primeiros momentos do seu ensino. Ao faz\u00ea-lo, tr\u00eas pontos s\u00e3o desdobrados: inicialmente o consumo \u00e9 articulado \u00e0 \u00e9tica, em seguida ao campo pulsional, especialmente ao objeto oral e \u00e0s fantasias de devora\u00e7\u00e3o, e, finalmente, ao discurso do capitalista.<\/p>\n<p><strong>Parte<\/strong><strong>\u00a0um<\/strong><strong>: <\/strong><strong>o consumo e a \u00e9tica<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Constatamos que o tratamento da quest\u00e3o do consumo feito por Lacan ([1959-1960] 1988) no <em>Semin\u00e1rio 7 \u2013 A \u00e9tica da psican\u00e1lise <\/em>traz operadores interes- santes para o debate, a saber: a estrutura da linguagem e sua cadeia de significantes, os bens como algo do qual o sujeito pode dispor ou se privar e a teoria dos valores: valor de tempo, valor de uso, valor de gozo, valor de desejo.<\/p>\n<p><strong><em>A<\/em><em>d\u00e3o<\/em><em>, e<\/em><em>va e o casaco de <\/em>vison<\/strong><\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, uma pergunta: afinal, como tem in\u00edcio essa est\u00f3ria de consumo? E, para tratar as origens, nada melhor do que as f\u00e1bulas. Temos, pois, essa que p\u00f5e em cena Ad\u00e3o, Eva e a dimens\u00e3o significante. \u201cEis, ent\u00e3o, Ad\u00e3o, e eis esses famosos pelos de uma Eva que ansiamos estarem \u00e0 altura da beleza que esse primeiro gesto evoca\u201d, comenta Jacques Lacan com a ironia que lhe \u00e9 peculiar. Pois bem, \u201cAd\u00e3o arranca um pelo daquela que lhe \u00e9 oferecida como c\u00f4njuge, esperada por toda a eternidade, e, no dia seguinte, ela volta para ele \u2013 com um casaco de <em>vison <\/em>nos ombros\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 277).<\/p>\n<p>Com esse coment\u00e1rio picante, Lacan introduz a quest\u00e3o dos bens. Ele ob- serva que na medida em que a realidade \u00e9 constitu\u00edda com o prazer, interessam as rela\u00e7\u00f5es do homem com os objetos de sua produ\u00e7\u00e3o, uma vez que eles ser\u00e3o objetos de suas necessidades, mas tamb\u00e9m de seus desejos, e \u00e9 patente que h\u00e1 uma dist\u00e2ncia entre a organiza\u00e7\u00e3o das necessidades e dos desejos (Lacan, [1959-1960] 1988). Para ele, o problema dos bens se coloca no interior do que \u00e9 a estrutura de linguagem e, nesse sentido, os bens ser\u00e3o objetos de discursos diversos. Assim, um peda\u00e7o de pano, dado que com ele se pode fazer uma roupa, \u00e9 um <em>valor de uso<\/em>, um objeto do campo do \u00fatil, no entanto suscita coment\u00e1rios diversos: um analista diria que ele mostra e esconde ao mesmo tempo, sem que se possa saber \u201cse o que se trata de fazer com este falo-pano \u00e9 revelar ou escamotear\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 276), um marxista observaria que o fato de o homem ter menos pelos do que alguns animais leva \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria, enquanto para os linguistas seria \u201ccomo significante que o que quer que seja se articula, nem que seja uma cadeia de pelos\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 277).<\/p>\n<p>O homem fabrica algo que pode estar ou n\u00e3o em \u201cuma rela\u00e7\u00e3o de encobrimen- to em rela\u00e7\u00e3o a seu pr\u00f3prio corpo, mas que vai correr o mundo independentemente como pano, que vai circular\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 278). Inserido no tempo, esse pano diferencia-se de qualquer produ\u00e7\u00e3o natural; uma vez fabricado, ele est\u00e1 sujeito \u00e0 moda, \u00e0 antiguidade, \u00e0 novidade. Ele estar\u00e1 l\u00e1, se precisarmos dele ou n\u00e3o. Se as necessidades do homem se alojarem no \u00fatil, configurando um <em>valor de uso<\/em>, a lei que organizar\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o dos bens rezar\u00e1 \u201co m\u00e1ximo de utilidade para a maioria\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 279). Nesse caso, o pano ter\u00e1 sido feito para que o maior n\u00famero poss\u00edvel de sujeitos introduzam a cabe\u00e7a e os ombros nos furos que se fizerem nele. S\u00f3 que as coisas come\u00e7am a funcionar de outro modo quanto aos objetos: \u201ch\u00e1 no in\u00edcio outra coisa al\u00e9m de seu <em>valor de uso <\/em>\u2013 h\u00e1 sua utiliza\u00e7\u00e3o de gozo\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 279), seu <em>valor de gozo<\/em>.<\/p>\n<p>Come\u00e7a a se delinear o problema dos bens e de sua fun\u00e7\u00e3o: como s\u00e3o criados os bens, dado que fornecem mat\u00e9ria para uma reparti\u00e7\u00e3o? Uma defini\u00e7\u00e3o anal\u00edtica do que seriam os bens se esbo\u00e7a: o bem, diz Lacan, n\u00e3o est\u00e1 no n\u00edvel do uso do pano, est\u00e1 no n\u00edvel disso \u2013 o sujeito pode dispor dele, assim como pode dispor de si mesmo. \u201cFreud j\u00e1 nos abrira esse caminho: dispor de seus bens \u00e9 ter o direito de privar os outros deles. Agora, se o sujeito pode dispor de seus bens, pode tamb\u00e9m defend\u00ea-los, isto \u00e9, pode proibir a si mesmo de gozar deles\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 279-280).<\/p>\n<p>Constatamos que o tratamento da quest\u00e3o do consumo pela \u00e9tica da psican\u00e1- lise leva a uma proposta de que \u201co valor de uma coisa \u00e9 a sua desejabilidade \u2013 trata- se de saber se ela \u00e9 digna de ser desejada, se \u00e9 desej\u00e1vel que a desejemos\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 24). Sobre esse <em>valor de desejo <\/em>o psicanalista comenta termos entrado com ele em uma esp\u00e9cie de lista que se poderia comparar a \u201cuma loja de roupa usada, onde se empilham as diversas formas de veredicto que no decorrer dos tempos, e ainda hoje, dominaram por sua diversidade [&#8230;] as aspira\u00e7\u00f5es dos homens\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 24). Portanto, o que \u00e9 desej\u00e1vel se insere no tempo, est\u00e1 sujeito aos usos e aos modos de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Com isso, ao tratar da produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e do consumo dos bens, a teoria psicanal\u00edtica introduz dois novos operadores, o gozo e o desejo, e eles d\u00e3o ao tratamento psicanal\u00edtico do consumo um vi\u00e9s cl\u00ednico que o especifica em rela\u00e7\u00e3o a outras leituras, aquelas mais sociol\u00f3gicas, por exemplo.<\/p>\n<p><strong><em>A<\/em><em>s caixas registradoras e a cifragem do gozo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Que a rela\u00e7\u00e3o do sujeito com os objetos de sua produ\u00e7\u00e3o, e de seu consumo, esteja marcada pelo significante leva Lacan a extrair do campo do cinema, de um filme de Jules Dassin, \u201cNunca aos domingos\u201d, um outro \u00e2ngulo a ser considerado quando se trata do consumo. Ele destaca na trama do filme uma cena em prin- c\u00edpio secund\u00e1ria: o personagem, que \u00e9 apresentado pela imediaticidade de seus sentimentos, em alguns momentos mostra o seu excesso de entusiasmo e satisfa\u00e7\u00e3o bebendo um copo e depois quebrando-o. \u201cCada vez que um desses estrondos se produz, vemos a caixa registradora se agitar freneticamente\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 380-381). Para o psicanalista, essa caixa define muito bem a estrutura com a qual lidamos, uma vez que para que o campo do desejo exista \u00e9 necess\u00e1rio que o que ocorre de real seja contabilizado em algum lugar. Uma vez que a culpa ha- bita o campo do desejo, surgem \u201ccadeias de contabilidade permanente\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 380-381), contabiliza-se o menos, as faltas, as priva\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m o mais, os excessos.<\/p>\n<p>Com Eva, Lacan introduzira ironicamente uma cadeia de pelos e, agora, mostra que eles s\u00e3o cont\u00e1veis. Logo, a contabilidade, a cifra, a cifra\u00e7\u00e3o do real, que em alguns casos serve \u00e0 faliciza\u00e7\u00e3o do gozo, est\u00e3o em jogo a\u00ed. Se o ca\u00e7ador antigo contabilizava entalhes, no mundo contempor\u00e2neo temos aparelhos, en- genhocas eletr\u00f4nicas que registram os excessos e os contabilizam. Essa presen\u00e7a da m\u00e1quina e dos seus registros emerge na fala de uma analisante quando, ao indagar na sess\u00e3o o seu consumo desenfreado e o seu endividamento, se d\u00e1 conta de que as suas d\u00edvidas ela as contra\u00edra nessas m\u00e1quinas de Caixa Eletr\u00f4nico, 24 horas em funcionamento <em>self-service<\/em>, tal como um pronto-socorro. Um detalhe lhe chama a aten\u00e7\u00e3o: o barulhinho da m\u00e1quina. Esse barulhinho n\u00e3o era sem import\u00e2ncia na d\u00edvida contra\u00edda com (ou a partir de) uma m\u00e1quina. Algo da maquinaria significante, da cifra\u00e7\u00e3o do real, n\u00e3o deixava de estar em jogo a\u00ed. J\u00e1 uma outra analisante diz, em um dos momentos em que se queixa sobre o lugar de pouca import\u00e2ncia que sempre teve no desejo de sua m\u00e3e, que ela, a sua m\u00e3e, tem uma cole\u00e7\u00e3o de mais de 80 pares de sapatos. Pelo que parece, o gozo materno encontrou no que poder\u00edamos denominar consumismo um modo de cifra\u00e7\u00e3o, de (se) fazer cifra, isto \u00e9, um modo de (se) contabilizar. Talvez j\u00e1 n\u00e3o se fa\u00e7am m\u00e3es f\u00e1licas como antigamente! Obviamente, alguns giros seriam necess\u00e1rios para que esse modo de gozo e de cifra\u00e7\u00e3o viesse a vacilar e a se constituir em um sintoma anal\u00edtico.<\/p>\n<p><em>U<\/em><em>ma satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pede nada a ningu\u00e9m<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Ao tomar a forma de um ato de colecionar, o consumo pode mostrar-se as- sociado n\u00e3o apenas a uma cifra\u00e7\u00e3o do real, a uma contabiliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a um movimento de sublima\u00e7\u00e3o. Com isso, chegamos ao que parece estar no pano de fundo da discuss\u00e3o sobre o consumo e a \u00e9tica da psican\u00e1lise proposta por Lacan no in\u00edcio dos anos 60, a saber: a sublima\u00e7\u00e3o. Nas suas elabora\u00e7\u00f5es, ele se refere ao encontro com um colecionador e com a sua cole\u00e7\u00e3o de caixas de f\u00f3sforo. Ao dizer ser, ele mesmo, um pouco colecionador e evocar as cole\u00e7\u00f5es de Freud, tribu- t\u00e1rias do fasc\u00ednio que exercia sobre ele a civiliza\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia, Lacan estabelece uma distin\u00e7\u00e3o entre o que denomina \u201cobjeto como fundamento da cole\u00e7\u00e3o\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 142) e o sentido daquilo que denomina objeto na an\u00e1lise: \u201cna an\u00e1lise o objeto \u00e9 um ponto de fixa\u00e7\u00e3o imagin\u00e1rio dando, em qualquer registro que seja, satisfa\u00e7\u00e3o a uma puls\u00e3o. O objeto de cole\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa completamente diferente\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 142).<\/p>\n<p>No caso mencionado, o surpreendente na cole\u00e7\u00e3o de caixas de f\u00f3sforo de Jac- ques Pr\u00e9vert \u00e9 que o ajuntamento de caixas de f\u00f3sforo vazias \u2013 esse o ponto essencial \u2013 tornava evidente que \u201cuma caixa de f\u00f3sforos n\u00e3o \u00e9 de modo algum simplesmente um objeto com uma certa utilidade, mas pode ser uma Coisa, uma coisa com sua coer\u00eancia de ser\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 143). Ao apresent\u00e1-la como \u201cuma forma vagabunda da gaveta\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 144), Lacan mostra que nessa cole\u00e7\u00e3o a gaveta apresentava-se liberada e n\u00e3o mais em sua \u201camplitude ventral, c\u00f4moda\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 144), revelando a Coisa para al\u00e9m do objeto. Essa Coisa, revelada para al\u00e9m do objeto, colocar-nos-ia diante de uma das formas da sublima\u00e7\u00e3o: \u201cse \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o, pelo menos nesse caso, \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pede nada a ningu\u00e9m\u201d (Lacan, [1959-1960] 1988: 144).<\/p>\n<p><strong>Parte dois<\/strong><strong>: \u201cA <\/strong><strong>puls\u00e3o busca a cada vez algo que responde no <\/strong><strong>o<\/strong><strong>utro<\/strong><strong>\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Depois dessa primeira localiza\u00e7\u00e3o do consumo em uma dimens\u00e3o \u00e9tica, creio ser importante relan\u00e7ar a quest\u00e3o mais al\u00e9m da determina\u00e7\u00e3o do sujeito pelo significante. Trata-se, pois, de interrogar o campo pulsional em jogo no consumo. Para tal privilegiaremos as articula\u00e7\u00f5es entre o consumo e o campo da puls\u00e3o e do objeto oral.<\/p>\n<p>Ao retomar o texto \u201cOs instintos e suas vicissitudes\u201d (Freud, [1915] 1974), Lacan indica que Freud escreve a atividade e a passividade das puls\u00f5es com o recurso das vozes gramaticais. Com as mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s das quais o sujeito pratica ou recebe a a\u00e7\u00e3o do verbo, temos as vozes ativa, passiva e reflexiva. Assim, a puls\u00e3o oral seria formulada nos termos: devorar, ser devorado, devorar- se. N\u00e3o muda o objeto, n\u00e3o muda o outro, o que muda \u00e9 o ponto no qual incide a a\u00e7\u00e3o do verbo, de tal modo que em um dos giros o sujeito \u00e9 reduzido \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de objeto. Lacan introduzir\u00e1 uma pequena nuan\u00e7a nessa gram\u00e1tica pulsional freu- diana. Para ele h\u00e1 sempre uma atividade em jogo na puls\u00e3o; portanto, ao inv\u00e9s do \u201cse devorar\u201d, \u201cse consumir\u201d, ele prop\u00f5e o \u201cse fazer\u201d, \u201cse fazer devorar\u201d, \u201cse fazer consumir\u201d. \u00c9 nesse \u201cse fazer\u201d que a atividade da puls\u00e3o se concentra, indica ele (Lacan, [1964] 1988).<\/p>\n<p><em>\u201cD<\/em><em>ecifra<\/em><em>&#8211;<\/em><em>me<\/em> <em>ou<\/em> <em>te<\/em> <em>dev<\/em><em>or<\/em><em>o<\/em><em>\u201d<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>O \u201cse fazer papar\u201d nos conduz ao campo fantasm\u00e1tico e \u00e0s fantasias de de- vora\u00e7\u00e3o nas quais a puls\u00e3o oral lan\u00e7a suas ra\u00edzes no terreno do masoquismo. Se a puls\u00e3o oral \u00e9 \u201cse fazer sugar\u201d, surgir\u00e3o a\u00ed n\u00e3o apenas a figura do lactente em sua \u201cvoracidade divina\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao valor agalm\u00e1tico do objeto que \u00e9 o seio (\u201cob- jeto chapado, que chupa o qu\u00ea? \u2013 o organismo da m\u00e3e\u201d), assim como a figura do vampiro, que deixa o sujeito na posi\u00e7\u00e3o de \u201cse fazer chupar\u201d (Lacan, [1964] 1988). O ponto importante a ser real\u00e7ado \u00e9 que a puls\u00e3o \u201cest\u00e1 encarregada de ir buscar algo que, de cada vez, responde no Outro\u201d (Lacan, [1964] 1988: 185). Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed manifesta\u00e7\u00e3o de um decl\u00ednio, inconsist\u00eancia, ou mesmo inexist\u00eancia do Outro. Pelo contr\u00e1rio, o \u201cse fazer devorar\u201d faz existir e d\u00e1 consist\u00eancia ao Outro. E n\u00e3o se trata de um Outro qualquer, o sujeito constr\u00f3i o seu grande Outro sob medida, e ele surge a\u00ed com essa face medonha de Outro devorador.<\/p>\n<p>\u201cDecifra-me, ou te devoro\u201d, diz a Esfinge. Com seu imperativo, ela se tor- na uma dessas figuras do pesadelo, presen\u00e7a angustiante do gozo do Outro. No entanto, por outro lado, ela \u00e9 tamb\u00e9m uma figura questionadora. Com a sua per- gunta (\u201cque animal \u00e9 este que anda com quatro p\u00e9s pela manh\u00e3, dois ao meio-dia e tr\u00eas \u00e0 noite?\u201d) ela formula uma demanda. \u201cTrata-se a\u00ed de um significante que se prop\u00f5e, ele mesmo, como opaco, constituindo a posi\u00e7\u00e3o do enigma como tal. Temos a\u00ed a forma mais primordial da demanda <em>do <\/em>Outro\u201d (Lacan, [1962-1963] 2005: 73). Todavia, a demanda pode tamb\u00e9m se manifestar como uma demanda <em>ao <\/em>Outro. Tal \u00e9 o caso dessa jovem mulher que vai ao analista para se queixar de um mal-estar vago e inespec\u00edfico, consigo mesma e com o outro. Para a analista, parecia evidente que ela a consultava devido \u00e0 sua obesidade, ao seu excesso de peso, no entanto isso demorava a ser tomado como um sintoma. \u201cGorda\u201d havia se transformado para esse sujeito em um modo de ser que n\u00e3o suscitava pergun- tas. Com o trabalho da an\u00e1lise, vai se evidenciar a posi\u00e7\u00e3o de objeto oral na qual ela se oferecia ao Outro: ela estava sempre l\u00e1 onde a demandavam, bastava que o outro pedisse e ela se fatigava para p\u00f4r em cena a sua personagem: boa m\u00e3e, boa esposa, boa trabalhadora. Se a demanda, no n\u00edvel inconsciente, relaciona-se com a inconsist\u00eancia do Outro, nesse caso a inconsist\u00eancia n\u00e3o aparecia, uma vez que, antes mesmo que a demanda aparecesse, o sujeito se oferecia, se antecipava em uma esp\u00e9cie de generosidade oral, tra\u00e7o que Karl Abraham ([1924] 1970) considerou caracter\u00edstico do que denomina car\u00e1ter oral. Fato \u00e9 que, quando era imposs\u00edvel para esse sujeito responder \u00e0s demandas e manter a sua personagem, manifestava-se um ponto de gozo espec\u00edfico: a bulimia. No desenrolar do tratamento desse caso, relatado por Diana Rabinovich (1989), observa-se como o trabalho da an\u00e1lise opera um deslocamento na gan\u00e2ncia de gozo que levava o sujeito do consumo excessivo de alimentos a uma posi\u00e7\u00e3o na qual ela pr\u00f3pria era consumida, na qual ela se oferecia como pasto \u00e0 devora\u00e7\u00e3o do Outro. No desenrolar do tratamento, \u00e0 medida que o sujeito perde em peso, o Outro perde em consist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong><em>A <\/em><em>fase oral e o canibalismo<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Ao tomar, no <em>Semin\u00e1rio 8 \u2013 A transfer\u00eancia<\/em>, a puls\u00e3o oral na sua dimens\u00e3o de demanda dirigida ao Outro, Lacan ([1960-1961] 1992) evidencia que h\u00e1 uma hi\u00e2ncia no confronto entre a demanda do sujeito de ser alimentado e a demanda, no campo do Outro, de que ele se deixe alimentar. \u00c9 o que se mostra nos casos de anorexia mental. Consoante Eric Bidaud (1998), ao recusar o alimento \u201ca anor\u00e9tica est\u00e1 retida na ilus\u00e3o de que nenhum outro \u00e9 suscept\u00edvel de recus\u00e1-lo a ela\u201d (Bidaud, 1998: 75). Para Lacan, a recusa anor\u00e9tica em satisfazer a demanda seria uma tentativa de salvaguardar o desejo. No entanto, a isso ele acrescenta que \u201ca demanda oral tem um outro sentido al\u00e9m da satisfa\u00e7\u00e3o da fome. Ela \u00e9 demanda sexual. Ela \u00e9, em seu fundo [&#8230;] canibalismo, e o canibalismo tem um sentido sexual\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 202). O horizonte do canibalismo caracteriza a fase oral como aquilo que ela \u00e9 na teoria psicanal\u00edtica, na medida em que o sujeito primitivo tem que se alimentar do corpo daquele que o alimenta. Nesse sentido, \u201ca vida \u00e9, no fundo, assimila\u00e7\u00e3o devoradora como tal\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 205), diz ele.<\/p>\n<p>Ao tratar a demanda oral no campo da transfer\u00eancia, Lacan recomenda aos analistas \u201cprud\u00eancia quanto \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o no n\u00edvel do registro oral\u201d (Lacan, [1960- 1961] 1992: 203), de modo a que se preserve a\u00ed o campo da fala e a possibilidade de sempre reencontrar o desejo. Uma vez que a boca que tem fome se exprime por uma cadeia significante, em frente ao alimento ela pode dizer \u201cesse n\u00e3o\u201d, pode negar, afastar, pode dizer \u201ceu gosto disso e n\u00e3o de outra coisa\u201d, fazendo explodir a especificidade do desejo. Desse modo, o psicanalista manifesta as suas reservas quanto \u00e0 compreens\u00e3o da demanda, j\u00e1 que o importante \u00e9 aquilo que est\u00e1 para al\u00e9m dela: essa margem de incompreens\u00e3o \u00e9 a mesma do desejo. Ao ceder nesse ponto, com um analisante obsessivo, por exemplo, o analista pode se deparar com um mecanismo pelo qual \u201cele quer faz\u00ea-los comer seu pr\u00f3prio ser \u2013 uma merda\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 207). Percebe-se, pois, que o analista pode ser chamado a fazer as vezes desse Outro consumidor, devorador.<\/p>\n<p><strong><em>\u00c0 <\/em><em>margem <\/em><em>do <\/em><em>desejo<\/em><em>, <\/em><em>a <\/em><em>goela <\/em><em>aberta da vida<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>\u201cNa fase oral, \u00e9 o tema do devoramento que est\u00e1 situado \u00e0 margem do desejo, \u00e9 a presen\u00e7a da goela aberta da vida\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 205). Portanto, o \u201cse fazer devorar\u201d, \u201cse fazer consumir\u201d situa-se \u00e0 margem do desejo, tem a estrutura da fantasia sadomasoquista na qual se espera um sofrimento do Outro. Assim, a Esfinge, o Pequeno Sugador, o Vampiro, o Canibal e, mesmo, a Generosa seriam modos de apresenta\u00e7\u00e3o dessa l\u00f3gica fantasm\u00e1tica em jogo no \u201cse fazer devorar\u201d. Com um tom de ironia que, como j\u00e1 dito, acompanha toda a elabora\u00e7\u00e3o do tema, Lacan acrescenta duas outras figuras \u00e0 s\u00e9rie de devoradores\/devorados ou de consumidores\/consumidos: o louva-a-deus f\u00eamea e as fantasias de comunh\u00e3o de Baltasar Graci\u00e1n.<\/p>\n<p>Ao tomar na esp\u00e9cie animal o que entende como um modelo para abordar o canibalismo oral, o psicanalista franc\u00eas mostra como o louva-a-deus macho perde literalmente a cabe\u00e7a no ato de copula\u00e7\u00e3o com a louva-a-deus f\u00eamea. Nesse ato assombroso, a extremidade cef\u00e1lica do macho \u00e9 devorada; \u00e9 isso que a f\u00eamea ama, ela goza \u00e0s expensas do outro. J\u00e1 com Baltasar Graci\u00e1n e suas fantasias de comunh\u00e3o, observa-se uma transi\u00e7\u00e3o da fome ao erotismo. Ao evocar os pecados originais (e, salvo engano, a gula est\u00e1 entre eles), Lacan mostra como \u201co sujeito vem se situar no card\u00e1pio do canibalismo que [&#8230;] nunca est\u00e1 ausente de qualquer fantasia de comunh\u00e3o\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 211). Chega-se, ent\u00e3o, a Graci\u00e1n e ao seu tratado sobre a comunh\u00e3o, no qual ele revela algo raramente confessado: \u201cas del\u00edcias do consumo do corpo de Cristo s\u00e3o ali detalhadas, e pedem-nos que nos detenhamos naquela bochecha excelente, naquele bra\u00e7o delicioso\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 216). Dispenso-os da continua\u00e7\u00e3o, na qual \u201ca concupisc\u00eancia espiritual se prolonga\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 216), assinala Lacan, indicando a\u00ed a presen\u00e7a do campo da identifica\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p><strong>Parte\u00a0 tr\u00eas<\/strong><strong>:<\/strong> <strong>o<\/strong><strong> \u00a0\u00fatil<\/strong><strong>,<\/strong> <strong>o<\/strong><strong> \u00a0gozo e \u00a0o \u00a0discuRso do \u00a0cApitAlistA<\/strong><\/p>\n<p>Em 1972, no <em>Semin\u00e1rio 20 \u2013 Mais, ainda<\/em>, Lacan ([1972-1973] 1982) diz ter encontrado no campo jur\u00eddico um termo que re\u00fane em uma palavra a diferen\u00e7a entre o \u00fatil e o gozo, indicada no <em>Semin\u00e1rio 7 \u2013 A \u00e9tica da psican\u00e1lise <\/em>(Lacan, [1959-1960] 1988). O usufruto quer dizer que \u201cpodemos gozar de nossos meios, mas n\u00e3o devemos enxovalh\u00e1-los\u201d (Lacan, [1972-1973] 1982: 11). Pode-se, pois, fruir de uma heran\u00e7a, com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o us\u00e1-la demais. Nesse sentido, em face ao \u00fatil, \u201co gozo \u00e9 aquilo que n\u00e3o serve para nada\u201d (Lacan, [1972-1973] 1982: 11), e o modo de reparti-lo, de distribu\u00ed-lo, faz a ess\u00eancia do Direito. Todavia, continua, se h\u00e1 um direito-ao-gozo, ele n\u00e3o \u00e9 um dever. \u201cNada for\u00e7a ningu\u00e9m a gozar, sen\u00e3o o supereu. O supereu \u00e9 o imperativo do gozo \u2013 Goza! \u00c9 a\u00ed mesmo que se acha o ponto girat\u00f3rio que o discurso anal\u00edtico interroga\u201d (Lacan, [1972- 1973] 1982: 11).<\/p>\n<p>Nos anos 70, a quest\u00e3o do valor de gozo se refere \u00e0 vertente mais-de-gozar do objeto e a quest\u00e3o da reparti\u00e7\u00e3o dos bens introduz a problem\u00e1tica da justi\u00e7a distributiva e do decl\u00ednio radical da fun\u00e7\u00e3o do mestre, decl\u00ednio j\u00e1 assinalado pelo autor do <em>Semin\u00e1rio 7 <\/em>\u2013 <em>A \u00e9tica da psican\u00e1lise <\/em>(Lacan, [1959-1960] 1988)<em>, <\/em>em benef\u00edcio do Discurso do Capitalista.<\/p>\n<p><strong><em>O <\/em><em>utilitarismo e <\/em><em>a <\/em><em>sua teoria das fic\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Para Lacan, a psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 imune ao deslizamento que ocorre no curso dos tempos, deslizamento que leva do mestre antigo e sua \u00e9tica fundada nos ideais ao utilitarista e sua moral calcada no valor de uso dos objetos, moral emergente no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Ele se apressa em dizer que de Arist\u00f3teles a Jeremy Bentham n\u00e3o se trata exatamente de um progresso, mas de diferentes modos de interrogar e, mesmo, de contornar o real. Para os utilitaristas, o mercado dos objetos se constitui a partir de seu valor de uso; dizem eles que \u201cquando lidamos com algo que pode ser trocado com nossos semelhantes, a regra \u00e9 sua utilidade n\u00e3o para n\u00f3s, mas a sua utilidade para todos e para o maior n\u00famero\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 240). Uma vez inserido em um mundo socializado, mundo da conformidade, coerente com uma organiza\u00e7\u00e3o universal do discurso, esse mercado de objetos, em seu valor de uso e de troca, precisar\u00e1 constituir uma teoria das fic\u00e7\u00f5es, algo que permita ir al\u00e9m do objeto em seu estatuto natural e que o estabele\u00e7a como objeto de um acordo comum.<\/p>\n<p>Em face disso, o psicanalista n\u00e3o pode sen\u00e3o objetar que, para a psican\u00e1lise, \u201co objeto [&#8230;] n\u00e3o \u00e9 de modo algum apreendido, transmiss\u00edvel, cambi\u00e1vel. Ele est\u00e1 no horizonte daquilo em torno do qual gravitam as nossas fantasias. E, no entanto, \u00e9 com isso que devemos fazer objetos que, por seu lado, sejam cambi\u00e1veis\u201d (La- can, [1960-1961] 1992: 240). Se o objeto, tal como insiste o psicanalista, \u201cdeve ser localizado no ponto mais radical onde se coloca a quest\u00e3o do sujeito quanto \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com o significante\u201d (Lacan, [1960-1961] 1992: 240), como ficar\u00e1 isso ali onde ocorre, juntamente ao decl\u00ednio do mestre, um decl\u00ednio da fun\u00e7\u00e3o do significante? No correr dos tempos observa-se que esse decl\u00ednio \u00e9 concomitante \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma teoria das fic\u00e7\u00f5es. Ela nos serviria? Em que e de que modo nos serviria? Se com o mestre antigo toda a explora\u00e7\u00e3o da \u00e9tica incidia sobre o dom\u00ednio do ideal, Lacan deixa a via aberta pelo significante-mestre para seguir com Freud quando ele articula a quest\u00e3o \u00e9tica interrogando a rela\u00e7\u00e3o do sujeito ao real. E, a\u00ed, o utilitarismo interessar\u00e1 \u00e0 psican\u00e1lise, uma vez que ao tomar as fic\u00e7\u00f5es n\u00e3o como enganosas e ilus\u00f3rias, mas em sua fun\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, ele as opor\u00e1 ao real. Portanto, para situar o bem e a sua circula\u00e7\u00e3o ser\u00e1 preciso interrogar as rela\u00e7\u00f5es da linguagem com o real.<\/p>\n<p>Com a teoria das fic\u00e7\u00f5es, que Lacan sempre comenta recolocando no horizonte as formula\u00e7\u00f5es de Jeremy Bentham, \u00e9 o registro do simb\u00f3lico que \u00e9 introduzido, ou seja, a verdade em seu estatuto de fic\u00e7\u00e3o (Lacan, [1959-1960] 1988). E as fic\u00e7\u00f5es utilitaristas organizariam o desejo tal como as f\u00f3rmulas da fantasia, indagamos? Um outro ponto a considerar: essa regula\u00e7\u00e3o pela via das fic\u00e7\u00f5es teria, de algum modo, dispensado o recurso ao significante-mestre que \u00e9 o Nome-do-Pai? Se for esse o caso, introduz-se uma esp\u00e9cie de desabonamento do inconsciente que pode deixar o sujeito \u00e0 merc\u00ea de um imperativo que diz: compre! \u00c9 onde o mestre antigo ceder\u00e1 seu lugar ao mestre contempor\u00e2neo: o capitalista!<\/p>\n<p><strong><em>O<\/em> <em>d<\/em><em>iscurso<\/em> <em>do<\/em> <em>c<\/em><em>apitalista<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tal como j\u00e1 assinalado, o objeto n\u00e3o est\u00e1 fora do tempo, ele n\u00e3o \u00e9 hoje o que era na \u00e9poca de Arist\u00f3teles e nem mesmo na \u00e9poca do utilitarismo. Isso ocorre na medida em que \u201co objeto \u00e9 fun\u00e7\u00e3o dos discursos em a\u00e7\u00e3o, \u00e9 fun\u00e7\u00e3o dos discursos que definem a civiliza\u00e7\u00e3o\u201d (Soler, 1998: 167). Posto isso, resta constatar que a civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea \u201c\u00e9 a civiliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e dos objetos que ela gera\u201d (Soler, 1998: 167). Assim, em 1970, no <em>Semin\u00e1rio 17 \u2013 O avesso da psican\u00e1lise<\/em>, Lacan ([1969-1970] 1992) menciona uma \u201cmuta\u00e7\u00e3o capital [&#8230;] que confere ao Discurso do Mestre seu <em>estilo <\/em>capitalista\u201d (Lacan, [1969-1970] 1992: 160). Esse estilo, tribut\u00e1rio de uma pequena invers\u00e3o entre o significante e o sujeito, ser\u00e1 suficiente para constituir o que ele denominar\u00e1, em <em>Televis\u00e3o<\/em>, Discurso do Capitalista. Essa \u201cpequena invers\u00e3o ser\u00e1 suficiente para que isso ande como se estivesse sobre rodas, isso n\u00e3o tem como andar melhor, mas desse modo isso anda r\u00e1pido demais, isso se consome, isso se consome t\u00e3o bem que isso se consuma\u201d (Lacan, [1972] 1978: 48), afirma a confer\u00eancia em Mil\u00e3o, <em>Du discours psychanalytique<\/em>, na qual Lacan faz a escrita do Discurso do Capitalista:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-250\" src=\"http:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/imagem_texto_marcia_rosa.jpg\" alt=\"\" width=\"472\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/imagem_texto_marcia_rosa.jpg 472w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/imagem_texto_marcia_rosa-300x212.jpg 300w, https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/imagem_texto_marcia_rosa-460x325.jpg 460w\" sizes=\"auto, (max-width: 472px) 100vw, 472px\" \/><\/p>\n<p>No Discurso do Capitalista, os <em>gadgets<\/em>, as quinquilharias, os objetos mais-de- gozar (<em>a<\/em>) v\u00eam no lugar da produ\u00e7\u00e3o e, com um fr\u00e1gil anteparo da l\u00f3gica significante (S1 -&gt; S2), deixam o sujeito \u00e0 merc\u00ea dos objetos ($ &lt;- a). Se antes fal\u00e1vamos em um objeto oral, pass\u00edvel de degluti\u00e7\u00e3o, de assimila\u00e7\u00e3o, de consumi\u00e7\u00e3o, essas novas apresenta\u00e7\u00f5es do objeto podem deixar o sujeito atordoado. \u00c9 o caso de uma mulher de origem rural que, tendo ganho um telefone celular, diz \u00e0 sua filha de pouco mais de dois anos que ela acabara de ganhar uma irm\u00e3zinha. Ato seguinte: ela para de fumar, de outro modo como alimentar o celular com cart\u00f5es telef\u00f4nicos! O que se percebe \u00e9 que, atordoada, ela resolvera adotar aquele pequeno aparelho: o celular!<\/p>\n<p>Ali onde o Discurso do Capitalista prevalece, isso anda como se estivesse sobre rodas, ou seja, anda r\u00e1pido demais e, desse modo, \u201cisso se consome, isso se consome t\u00e3o bem que isso se consuma\u201d (Lacan, [1972] 1978: 48). A l\u00edngua portuguesa, tal como apresentada pelo <em>Dicion\u00e1rio Aur\u00e9lio<\/em>, torna-o evidente na medida em que os termos \u201cconsumismo\u201d e \u201cconsumi\u00e7\u00e3o\u201d s\u00e3o bastante pr\u00f3ximos. No entanto, se o primeiro nos aponta um sistema que favorece o consumo exagerado e indica uma tend\u00eancia a comprar exageradamente, \u00e9 no segundo termo que o modo de gozo presente nessa tend\u00eancia ou impulso se explicita: \u201cconsumi\u00e7\u00e3o\u201d indica o ato de consumir(-se), o efeito de consumir, uma mortifica\u00e7\u00e3o. Indo al\u00e9m dos substantivos, o verbo \u201cconsumir\u201d, do latim <em>consumere<\/em>, coloca em s\u00e9rie gastar, comer, destruir, dar cabo, arruinar, al\u00e9m de comungar (o padre, \u00e0 missa), sentidos bastante presentes nas elabora\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas sobre o tema.<\/p>\n<p>Pudemos constatar esse desvelamento da consumi\u00e7\u00e3o sob o consumismo nos extratos cl\u00ednicos mencionados brevemente no decorrer do texto. Em um deles, a analisante se serve dos caixas-eletr\u00f4nicos com funcionamento 24 horas como de um servi\u00e7o de pronto-atendimento e os \u201cbarulhinhos\u201d da m\u00e1quina t\u00eam um efeito hipn\u00f3tico sobre ela. No momento seguinte, ela \u00e9 for\u00e7ada \u00e0 contabiliza\u00e7\u00e3o de uma d\u00edvida de propor\u00e7\u00f5es assustadoras, d\u00edvida que passa a lhe consumir a vida cotidiana. Em outro caso, a filha disputa com as quinquilharias, que no caso tomam a forma de sapatos, um lugar no desejo da m\u00e3e. Se, ainda no seu texto \u201cA terceira\u201d, Lacan ([1974] 1980) observou que um sujeito pode tomar um autom\u00f3vel como uma falsa mulher, isso nos permite assinalar a particularidade das parcerias com esses objetos, os <em>gadgets<\/em>, que n\u00e3o interpelam o sujeito quanto ao seu desejo, quanto ao seu amor e nem quanto ao seu gozo, parcerias nas quais ele acaba fazendo economia do la\u00e7o social com o Outro.<\/p>\n<p><strong><em>O<\/em><em>s<\/em> <em>objetos e <\/em><em>a <\/em><em>inven\u00e7\u00e3o de novos modos de narrar<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Se o mundo contempor\u00e2neo \u00e9 regido pelas fabrica\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia, o espa\u00e7o no qual elas circulam est\u00e1 ocupado por \u201condas hertzianas (ondas eletromagn\u00e9ticas utilizadas em r\u00e1dio transmiss\u00e3o) ou quaisquer outras\u201d (Lacan, [1969-1970] 1992: 153), inapreens\u00edveis no n\u00edvel da percep\u00e7\u00e3o. O ar, a atmosfera contempor\u00e2nea, estaria povoado pelas fabrica\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia em sua verdade formalizada. O jogo de encobrimento e revela\u00e7\u00e3o da verdade, da <em>aletheia<\/em>, d\u00e1 lugar a um neologismo que permite a Lacan renomear esse espa\u00e7o: a aletosfera. E ela, a aletosfera, estar\u00e1 povoada pela <em>acoisa <\/em>(<em>lachose<\/em>), pelas <em>latusas<\/em>, por esses pequenos objetos que est\u00e3o \u00e0 mostra \u201cno pavimento de todas as esquinas, atr\u00e1s de todas as vitrines\u201d (Lacan, [1969-1970] 1992: 153). Na sua prolifera\u00e7\u00e3o, na sua multiplica\u00e7\u00e3o, eles s\u00e3o feitos para causar o desejo e, isso, \u201cna medida em que agora \u00e9 a ci\u00eancia que o governa\u201d (Lacan, [1969-1970] 1992: 153).<\/p>\n<p>Para finalizar, \u00e9 interessante notar que <em>lathouse <\/em>rima com <em>ventouse<\/em>, isto \u00e9, que latusa rima com ventosa, portanto \u201ch\u00e1 vento ali dentro, muito vento, o vento da voz humana\u201d (Lacan, [1969-1970] 1992: 154). Assim, face \u00e0s presen\u00e7as hegem\u00f4nicas do cientista e do capitalista, podemos insistir em que restar\u00e1 sempre o recurso de uma voz humana que se p\u00f5e a inventar hist\u00f3rias ou mesmo a voz do poeta quando narra o modo como Ulisses enganou a antropofagia do Outro. \u00c0 pergunta sobre seu nome pr\u00f3prio, ao responder \u201cMeu nome \u00e9 Ningu\u00e9m\u201d, o her\u00f3i cl\u00e1ssico se valeu de uma ast\u00facia demonstrando-a em ato: disse seu nome, escondendo-o. A resposta n\u00e3o se fez esperar: \u201cNingu\u00e9m, hei de comer-te!\u201d, disse o ciclope, anunciando, sem se dar conta, o seu pr\u00f3prio fracasso (Homero, [8bC] 2000). A sorte de Ulisses foi a de ter habitado um mundo onde a presen\u00e7a de um vazio no campo do sentido e das refer\u00eancias abriu \u00e0 inven\u00e7\u00e3o. J\u00e1 a antropofagia e o consumismo e\/ou a consumi\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea parecem estar a nos exigir a inven\u00e7\u00e3o de novos modos de narrar. E ent\u00e3o, quais ser\u00e3o as est\u00f3rias que contaremos aos nossos descendentes?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Texto originalmente publicado em Rosa, M\u00e1rcia (2010). Jacques Lacan e a cl\u00ednica do consumo. Psicologia Cl\u00ednica, 22(1),157-171.[fecha de Consulta 9 de Agosto de 2021]. ISSN: 0103-5665. Dispon\u00edvel em:\u00a0\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.redalyc.org\/articulo.oa?id=291022021010\">https:\/\/www.redalyc.org\/articulo.oa?id=291022021010<\/a><\/h6>\n<h6>O boletim <em>Bendeg\u00f3\u00a0<\/em>agradece gentilmente a autoriza\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><strong>R<\/strong><strong>efer\u00eancias<\/strong><\/h6>\n<h6>Abraham, K. (1924\/1970). A influ\u00eancia do erotismo oral na forma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter. In: <em>Teoria psicanal\u00edtica da libido<\/em>. <em>Sobre o car\u00e1ter e o desenvolvimento da libido <\/em>(pp. 161-173). Rio de Janeiro: Imago.<\/h6>\n<h6>Bidaud, E. (1998). <em>Anorexia mental, ascese, m\u00edstica<\/em>. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.<\/h6>\n<h6>Freud, S. (1915\/1974). Os instintos e suas vicissitudes. <em>Obras completas<\/em>, ESB, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago.<\/h6>\n<h6>Freud, S. (1916-1917\/1974). Confer\u00eancias introdut\u00f3rias sobre a psican\u00e1lise (parte III).<\/h6>\n<h6><em>Obras completas<\/em>, v. XVI. Rio de Janeiro: Imago.<\/h6>\n<h6>Homero. (8bC\/2000). <em>Odiss\u00e9ia<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Manuel Odorico Mendes. S\u00e3o Paulo: Ars Po\u00e9tica \/ Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1959-1960\/1988). <em>O semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1960-1961\/1992). <em>O semin\u00e1rio, livro 8: a transfer\u00eancia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1962-1963\/2005). <em>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1964\/1988). <em>O<\/em> <em>semin\u00e1rio,<\/em> <em>livro<\/em> <em>11:<\/em> <em>os<\/em> <em>quatro<\/em> <em>conceitos<\/em> <em>fundamentais<\/em> <em>da<\/em> <em>psican\u00e1lise<\/em>.<\/h6>\n<h6>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1969-1970\/1992). <em>O semin\u00e1rio, livro 17<\/em>: <em>o avesso da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1972-1973\/1982). <em>O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda. <\/em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1972\/1978). Du discours psychanalytique. In: <em>Lacan in It\u00e1lia <\/em>(pp. 32-55).<\/h6>\n<h6>Mil\u00e3o: La Salamandra.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1974\/1980). La tercera. In: <em>Actas de la Escuela Freudiana de Paris <\/em>(pp. 159-186).<\/h6>\n<h6>Barcelona: Ediciones Petrel.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1974\/1993). <em>Televis\u00e3o<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<\/h6>\n<h6>Rabinovich, D. (1989). <em>Una cl\u00ednica de la pulsi\u00f3n: las impulsiones<\/em>. Buenos Aires: Manan- tial.<\/h6>\n<h6>Soler, C. (1998). O sintoma na civiliza\u00e7\u00e3o. <em>Curinga<\/em>, <em>11<\/em>, 164-174.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>Recebido em 21 de julho de 2008 Aceito para publica\u00e7\u00e3o em 22 de abril de 2010<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FJacques-Lacan-e-a-clinica-do-consumo-Marcia-Rosa.pdf&#8221;][vc_column_text] M\u00e1rcia Rosa* Resumo O texto destaca e percorre os principais momentos nos quais Jacques Lacan se deteve sobre a quest\u00e3o do consumo e, ao faz\u00ea-lo, desdobrou tr\u00eas pontos. 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