{"id":244,"date":"2021-08-17T08:43:13","date_gmt":"2021-08-17T11:43:13","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/?p=244"},"modified":"2021-08-17T14:52:02","modified_gmt":"2021-08-17T17:52:02","slug":"por-que-so-ha-racas-de-discurso-desafios-a-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/por-que-so-ha-racas-de-discurso-desafios-a-democracia\/","title":{"rendered":"Por que s\u00f3 h\u00e1 ra\u00e7as de discurso: desafios \u00e0 democracia"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FPor-que-so-ha-racas-de-discurso-desafios-a-democracia-Jesus-Santiago.pdf&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h6>J\u00e9sus Santiago<\/h6>\n<p>Para a psican\u00e1lise, as ra\u00e7as constituem um mito criado por diversas manifesta\u00e7\u00f5es de discursos dominantes. O que existe \u00e9 &#8220;o racismo dos discursos em a\u00e7\u00e3o&#8221;<sup>1<\/sup>, portanto, o que h\u00e1 das ra\u00e7as resulta de pensamentos e pr\u00e1ticas racistas. Ra\u00e7a e racismo s\u00e3o insepar\u00e1veis, ou seja, o mito de ra\u00e7as diferentes \u00e9 produto do racismo que emergiu, no in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, com repercuss\u00f5es no discurso da ci\u00eancia. Assim, o paradigma de cunho racial faz-se presente, por exemplo, em iniciativas de naturalistas \u2013 entre outros, como Carl von Linn\u00e9 (1707-1778) \u2013 que buscavam um princ\u00edpio de classifica\u00e7\u00e3o de grupos de homens e de animais em categorias, segundo crit\u00e9rios biol\u00f3gicos e morfol\u00f3gicos. Os problemas acarretados por esse esfor\u00e7o de classifica\u00e7\u00e3o agravam-se com o advento do evolucionismo darwinista, no s\u00e9culo XIX, quando os crit\u00e9rios da antropologia f\u00edsica d\u00e3o lugar a crit\u00e9rios biol\u00f3gicos e gen\u00e9ticos. Refor\u00e7a-se, ent\u00e3o, no contexto do saber, a ideia de uma hierarquia das ra\u00e7as, como resultado de uma presum\u00edvel evolu\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio heredit\u00e1rio modificado por adapta\u00e7\u00e3o ou por sele\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Paradoxalmente, o pr\u00f3prio avan\u00e7o da ci\u00eancia acaba por demonstrar o equ\u00edvoco desses princ\u00edpios classificat\u00f3rios e pode-se concluir que sua postula\u00e7\u00e3o carrega uma n\u00edtida ideologia pol\u00edtica de vi\u00e9s racista. Os desenvolvimentos recentes da gen\u00e9tica molecular e o sequenciamento do genoma humano permitem um exame detalhado da correla\u00e7\u00e3o entre a varia\u00e7\u00e3o gen\u00f4mica, ancestralidade biogeogr\u00e1fica e apar\u00eancia f\u00edsica e revelam que as designa\u00e7\u00f5es empregadas para distinguir as \u201cra\u00e7as\u201d \u2013 amarela, negra, branca, vermelha \u2013 n\u00e3o t\u00eam qualquer base cient\u00edfica demonstr\u00e1vel. Segundo S\u00e9rgio Pena, geneticista brasileiro, por mais que possa parecer f\u00e1cil distinguir fenotipicamente um europeu de um africano ou de um asi\u00e1tico, tal facilidade desaparece por completo quando se procuram evid\u00eancias de diferen\u00e7as \u201craciais\u201d no genoma humano<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Jacques Lacan, psicanalista franc\u00eas, nos anos 60, sob os ausp\u00edcios do instrumental conceitual e cl\u00ednico da psican\u00e1lise, tem a ousadia de profetizar o recrudescimento do racismo<sup>3<\/sup> no momento em que os novos ares dos tempos sopram mudan\u00e7as do mundo \u2013 transforma\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, fim do patriarcado e revolu\u00e7\u00e3o sexual. Para surpresa de todos, Lacan prognostica a escalada do racismo em fun\u00e7\u00e3o do que, na \u00e9poca, ainda n\u00e3o se denominava globaliza\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o, a atividade cl\u00ednica do psicanalista destaca sinais evidentes de que as diferen\u00e7as raciais se tornam insuport\u00e1veis, sobretudo quando emergem e se misturam em um mesmo espa\u00e7o de conviv\u00eancia. Quem n\u00e3o reconhece teor racista, por exemplo, no coment\u00e1rio de um brasileiro que, diante da massifica\u00e7\u00e3o do transporte a\u00e9reo, afirma que \u201cos aeroportos viraram rodovi\u00e1ria\u201d?<\/p>\n<p>Pode-se facilmente, neste ponto, deduzir o princ\u00edpio b\u00e1sico do racismo: se o Outro n\u00e3o goza da mesma maneira, o Outro deve ser repelido e recha\u00e7ado. Eis tamb\u00e9m o que est\u00e1 na raiz da deprecia\u00e7\u00e3o e difama\u00e7\u00e3o de mulheres e que se pode nomear como racismo antifeminino. A perspectiva contempor\u00e2nea do capitalismo de integra\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es em conjuntos mais amplos, que autorizavam os mercados comuns, pode colocar em risco as diversas civiliza\u00e7\u00f5es. A imposi\u00e7\u00e3o de formas padronizadas e homogeneizadas de consumo amea\u00e7a a exist\u00eancia de modos singulares de gozo, especialmente, nos dias de hoje, em que n\u00e3o se goza da mesma maneira em rela\u00e7\u00e3o a estilos de vida, cren\u00e7as religiosas, Deus e ao pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise antev\u00ea a necessidade de uma &#8220;terap\u00eautica de massa&#8221;<sup>4<\/sup> que se traduz na promo\u00e7\u00e3o de discursos p\u00fablicos que ofere\u00e7am outras perspectivas a sintomas do \u00f3dio implac\u00e1vel ao Outro. Tais discursos, inspirados na psican\u00e1lise, podem contribuir para tolher a cristaliza\u00e7\u00e3o de sintomas da civiliza\u00e7\u00e3o que, no caso do racismo, tem sua raiz no corpo. Se certo n\u00famero de discursos produz identifica\u00e7\u00f5es que convergem para o obscurantismo conservador, a defesa intransigente da tradi\u00e7\u00e3o patriarcal, a hostilidade \u00e0 vida civilizada, enfim, a morte do Outro, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o alguma para a exist\u00eancia de outros discursos que se oponham \u00e0 solidifica\u00e7\u00e3o de tais identifica\u00e7\u00f5es e que se transformam em a\u00e7\u00f5es dissolventes e corrosivas delas.<\/p>\n<p>Nosso ponto de vista \u00e9 de que a quest\u00e3o do racismo constitui um dos maiores desafios para a consolida\u00e7\u00e3o da democracia que se deseja para o Brasil. Ao contr\u00e1rio do que se pode pensar, o epis\u00f3dio recente protagonizado pelo jornalista William Waack demonstra que o racismo no pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 um fato isolado e tampouco se expressa apenas por manifesta\u00e7\u00f5es eventuais e insidiosas mediante xingamentos e insultos. Se um representante renomado da imprensa nacional profere tal fala racista, isso ocorre porque h\u00e1 algo da discrimina\u00e7\u00e3o racial que integra a pr\u00f3pria estrutura desigual e antidemocr\u00e1tica da sociedade brasileira e porque o Brasil est\u00e1 longe de ser o pa\u00eds da cordialidade e dos afetos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o sintoma da segrega\u00e7\u00e3o racial deve ser considerado exemplo vivo de que a democracia n\u00e3o se confunde com o Estado de direito. Uma sociedade restrita a significantes-mestres da legalidade e da norma jur\u00eddica \u00e9 incapaz de se contrapor aos inimigos do g\u00eanero humano e nela o racismo se revela, ao longo dos tempos, uma arma privilegiada. Insistimos, por consequ\u00eancia, que a democracia n\u00e3o se confunde com o juridicismo e seu vigor exige uma conversa\u00e7\u00e3o ass\u00eddua sobre as grandes dire\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 vida civilizada. Enfim, a democracia apresenta-se no lugar de uma causa que coloca cada cidad\u00e3o que dela participa como sujeito do desejo e tamb\u00e9m do desejo de democracia que, certamente, se situa sempre fora da norma. Assim sendo, a realiza\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Por que s\u00f3 h\u00e1 ra\u00e7as de discurso: desafios \u00e0 democracia se constituir\u00e1 ocasi\u00e3o \u00edmpar para se levar adiante a discuss\u00e3o sobre como lidar com o sintoma do racismo, favorecendo a presen\u00e7a de discursos p\u00fablicos que busquem orienta\u00e7\u00f5es e valores civilizat\u00f3rios compat\u00edveis com a vida.<\/p>\n<h6>Texto originalmente publicado <strong>em: <a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/extra001\/texto_Jesus%20Santiago.html\">https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/extra001\/texto_Jesus%20Santiago.html<\/a><\/strong><\/h6>\n<h6>O boletim <em>Bendeg\u00f3\u00a0<\/em>agradece gentilmente a autoriza\u00e7\u00e3o do autor.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6>1 LACAN, J. \u201cO aturdito\u201d.In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 463.<\/h6>\n<h6>2 PENA, S. D. J. \u201cDesinventando as ra\u00e7as\u201d. In: LANDIM, M\u00aa I.; MOREIRA, C.R. Charles Darwin. Em um futuro n\u00e3o t\u00e3o distante. S\u00e3o Paulo: Instituto Sangari, 2009, p. 129.<\/h6>\n<h6>3 LACAN, J. \u201cProposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola\u201d. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 263.<\/h6>\n<h6>4 MILLER, J.-A. \u201cL\u2019homme d\u00e9cid\u00e9: entretien avec Jacques-Alain Miller\u201d. Paris: Vacarme, 2014.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FPor-que-so-ha-racas-de-discurso-desafios-a-democracia-Jesus-Santiago.pdf&#8221;][vc_column_text] J\u00e9sus Santiago Para a psican\u00e1lise, as ra\u00e7as constituem um mito criado por diversas manifesta\u00e7\u00f5es de discursos dominantes. O que existe \u00e9 &#8220;o racismo dos discursos em a\u00e7\u00e3o&#8221;1, portanto, o que h\u00e1 das ra\u00e7as resulta de pensamentos e pr\u00e1ticas racistas. 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