{"id":242,"date":"2021-08-17T08:40:15","date_gmt":"2021-08-17T11:40:15","guid":{"rendered":"http:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/?p=242"},"modified":"2021-08-17T14:52:17","modified_gmt":"2021-08-17T17:52:17","slug":"odio-racismo-e-o-devir-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebpbahia.com.br\/jornadas\/2021\/odio-racismo-e-o-devir-do-mundo\/","title":{"rendered":"\u00d3dio, racismos e o devir do mundo"},"content":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FOdio-racismos-e-o-devir-do-mundo-Flavia-Cera.pdf&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h6 class=\"bold\">Fl\u00e1via C\u00eara (EBP)<\/h6>\n<p class=\"r i\">\u201c[\u2026] parece que os povos obedecem agora muito mais \u00e0s suas paix\u00f5es do que aos seus interesses\u201d\u00b9.<\/p>\n<p class=\"r\">Como pensar as rela\u00e7\u00f5es entre \u00f3dio e racismo? O primeiro des\u00e1gua necessariamente no segundo? Laurent retoma Lacan apresentando o la\u00e7o social fundado em uma rejei\u00e7\u00e3o primordial que constitui o \u00f3dio: \u201cn\u00e3o \u00e9 um homem aquele que eu rejeito como tendo um gozo diferente do meu\u201d\u00b2. Odeia-se, por\u00e9m, o desconhecido do pr\u00f3prio gozo. Como, ent\u00e3o, esse desconhecido se apresenta como diferen\u00e7a reconhec\u00edvel e ganha um alcance na cultura com consequ\u00eancias que se arrastam por s\u00e9culos? E ainda: a l\u00f3gica da exclus\u00e3o contempla a profus\u00e3o da viol\u00eancia racista de nossos dias?<\/p>\n<p class=\"r\">Achille Mbembe, em seu livro Cr\u00edtica da raz\u00e3o negra, apresenta o racismo como a identifica\u00e7\u00e3o do homem n\u00e3o com aquilo que o torna igual aos outros, mas com aquilo que o distingue deles: \u201ctudo que n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico a mim, \u00e9 anormal\u201d. \u00c9 sobre o fundo de uma nomea\u00e7\u00e3o europeia que o \u201cnegro\u201d passa a existir, e a empresa colonial e civilizadora n\u00e3o deixar\u00e1 de produzir cesuras que precipitar\u00e3o o lugar do negro como aquele que n\u00e3o \u00e9 homem. A \u201craz\u00e3o negra\u201d se constr\u00f3i a\u00ed e \u201c[\u2026] se consola odiando, manejando o terror, praticando o alteroc\u00eddio, isto \u00e9, constituindo o outro n\u00e3o como semelhante a si mesmo, mas como objeto propriamente amea\u00e7ador, do qual \u00e9 preciso se proteger, desfazer, ou que, simplesmente, \u00e9 preciso destruir, na impossibilidade de assegurar o seu controle total\u201d\u00b3.<\/p>\n<p class=\"r\">Miller diz que o \u00f3dio racista \u00e9 o \u00f3dio ao pr\u00f3prio gozo, que, desconhecido, se localiza no outro para poder extirpar essa perturba\u00e7\u00e3o opaca que escapa \u00e0 simboliza\u00e7\u00e3o\u2074. H\u00e1 um Outro que amea\u00e7a minha exist\u00eancia e deve ser exclu\u00eddo. Este, alerta Mbembe, sempre foi um dos paradigmas da pol\u00edtica na modernidade.<\/p>\n<p class=\"r\">Algo mudou, as tecnologias do biopoder j\u00e1 n\u00e3o d\u00e3o conta de explicar as pr\u00e1ticas contempor\u00e2neas. Por isso, Mbembe acrescenta \u00e0 biopol\u00edtica e \u00e0 disciplina o necropoder, que ultrapassa a ideia de inclus\u00e3o e exclus\u00e3o, de produ\u00e7\u00e3o da vida, e passa a ter, no seu horizonte, o massacre e o exterm\u00ednio como solu\u00e7\u00e3o operante na destitui\u00e7\u00e3o do Estado como detentor do monop\u00f3lio da viol\u00eancia e na reconfigura\u00e7\u00e3o da guerra com o apagamento das diferen\u00e7as entre os campos pol\u00edticos externos e internos\u2075. Se havia regras intr\u00ednsecas no regime de soberania em que vigorava a biopol\u00edtica, se era preciso delimitar o dentro e o fora e se servir de formas jur\u00eddicas de exce\u00e7\u00e3o, na necropol\u00edtica isso n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. O que outrora se validava pelo progresso, de desenvolver o que se considerava subdesenvolvido\u2076, circula agora em uma matriz orientada pelo discurso capitalista que privilegia contornos indefinidos. Nesse sentido, podemos verificar no mundo inteiro um esgotamento das pol\u00edticas de inclus\u00e3o e disciplina, a crise da imigra\u00e7\u00e3o e a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho como seus maiores exemplos. Por consequ\u00eancia, a l\u00f3gica da exclus\u00e3o tampouco encontraria lugar. N\u00e3o obstante, constroem-se muros, cercas e toda a sorte de identidade nacional que empurra o racismo para uma pol\u00edtica cotidiana autorizada pelo discurso do mestre que manipula um \u00f3dio difuso e generalizado anunciando, como destino e sintoma, o que Mbembe nomeia como \u201cdevir-negro do mundo\u201d\u2077.<\/p>\n<p class=\"r\">O que se apaga nesse cen\u00e1rio \u00e9 o limite que a palavra \u00e9 capaz de fazer. O la\u00e7o sustentado no discurso de \u00f3dio \u00e9 fr\u00e1gil: ele pode facilmente alcan\u00e7ar o ponto em que a palavra se demite, e o campo da viol\u00eancia aparece livre. E \u00e0 viol\u00eancia disseminada, constantemente, responde-se com a guerra. A psican\u00e1lise, contudo, sabe que a paz \u00e9 uma ilus\u00e3o, no entanto n\u00e3o deixa de apostar, em cada experi\u00eancia, e nas bordas do seu imposs\u00edvel, em dar outro destino ao \u00f3dio no enlace com a alteridade.<\/p>\n<h6>Texto originalmente publicado <strong>em: <a href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-9\/\">https:\/\/ix.enapol.org\/boletim-oci-9\/<\/a><\/strong><\/h6>\n<h6>O boletim\u00a0<em>Bendeg\u00f3\u00a0<\/em>agradece gentilmente a autoriza\u00e7\u00e3o da autora.<\/h6>\n<hr \/>\n<h6 class=\"r notes\">Notas<\/h6>\n<h6 class=\"r notes\">\u00b9 FREUD, S. \u201cReflex\u00f5es para os tempos de guerra e morte\u201d. In: Edi\u00e7\u00e3o Standard. Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago.<\/h6>\n<h6 class=\"r notes\">\u00b2 LAURENT, \u00c9. \u201cRacismo 2.0\u201d. In: Op\u00e7\u00e3o Lacaniana, n. 67, dezembro 2013.<\/h6>\n<h6 class=\"r notes\">\u00b3 MBEMBE, A. Cr\u00edtica da Raz\u00e3o Negra. S\u00e3o Paulo: N-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018, p. 27.<\/h6>\n<h6 class=\"r notes\">\u2074 MILLER, J.-A. Extimidad. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2017, p. 43-58.<\/h6>\n<h6 class=\"r notes\">\u2075 MBEMBE, A. Necropol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: N-1 edi\u00e7\u00f5es, 2018.<\/h6>\n<h6 class=\"r notes\">\u2076 LACAN, J. Televis\u00e3o. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.<\/h6>\n<h6 class=\"r notes\">\u2077 MBEMBE, A. Op. Cit., p. 20.<\/h6>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Downlod PDF&#8221; color=&#8221;juicy-pink&#8221; size=&#8221;xs&#8221; i_icon_fontawesome=&#8221;fas fa-file-pdf&#8221; add_icon=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:http%3A%2F%2Febpbahia.com.br%2Fjornadas%2F2021%2Fwp-content%2Fuploads%2F2021%2F08%2FOdio-racismos-e-o-devir-do-mundo-Flavia-Cera.pdf&#8221;][vc_column_text] Fl\u00e1via C\u00eara (EBP) \u201c[\u2026] parece que os povos obedecem agora muito mais \u00e0s suas paix\u00f5es do que aos seus interesses\u201d\u00b9. Como pensar as rela\u00e7\u00f5es entre \u00f3dio e racismo? O primeiro des\u00e1gua necessariamente no segundo? 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