O bom uso do semblante e o real que resiste

O bom uso do semblante e o real que resiste

Helenice Saldanha de Castro
Membro da EBP/AMP
Email: [email protected]

“Autoritarismo não existe, sectarismo não existe, xenofobia não existe, fanatismo não existe. Bruxa fantasma bicho papão. O real resiste…” (Arnaldo Antunes)

Resumo: Valendo-se das categorias de semblante e real presentes no ensino de Lacan, o texto visa tratar as incidências da atual crise política nacional no uso da linguagem como elemento público. Para em seguida, apresentar como distintos usos do semblante definem formas diferentes de laço social.
Palavras-chaves: Verdade. Mentira. Semblante. Real. Laço social.
Abstract: Using the categories present in Lacan’s teaching of semblant and real, the text aims to address the incidences of the current political crisis in the use of language as a public element. Then, to present how different uses of the semblant define different forms of social bond.
 Keywords: Truth. Lie. Semblant. Real. Social bond.

Como sabemos, a expressão “pôr as cartas na mesa”, que tem origem nos jogos de baralho, faz referência ao momento em que os jogadores mostram aos parceiros as cartas que têm na mão, revelando assim o que definia até então as estratégias do jogo. Porém, na situação atual, onde as cartas parecem extremamente embaralhadas e talvez não haja nem mesmo uma mesa onde se possa apoiá-las, como encontrar uma bússola que nos oriente dentro dessa espessa neblina que invadiu a cena nacional?

Refiro-me aqui a dois acontecimentos que no nosso país acabam por se articular, produzindo assim uma crise de dimensões incalculáveis e que desvela a dimensão mortífera da pulsão: a pandemia do novo coronavírus e a atual prática política do governo federal que só faz evidenciar a sua inimizade pelo gênero humano.

Valer-me-ei como ponto de partida do que recolhi de uma recente entrevista com o artista plástico e escritor Nuno Ramos (RAMOS, 2020). Ramos acredita vivermos simultaneamente à pandemia do covid-19 uma crise política que incide no uso da linguagem como elemento público, crise que produz uma perda absoluta de limite, de contorno e de chão.

Ao concordarmos com Nuno Ramos, e se a experiência analítica encontra sua estrutura na palavra e na linguagem, o que a psicanálise tem a dizer sobre essa crise? A questão, portanto, que se desdobra dessa primeira é como considerar o que se diz verdade ou mentira.

No percurso do ensino de Lacan três importantes categorias se destacam, a saber: o imaginário, o simbólico e o real. Porém, no Seminário, livro XVII, O avesso da psicanálise, Lacan introduzirá a categoria do semblante, que permitirá reler as três anteriores.

Essa categoria passa então a ser fundamental para que avancemos sobre a questão do uso da linguagem, pois opera-se aqui a uma torsão em que o semblante não se oporá à verdade, mas trará no seu bojo tanto a verdade como a mentira. Dá-se assim um deslocamento onde da oposição entre semblante e verdade, o que se coloca agora é o semblante versus o real.

Nesse divórcio promovido entre o semblante e o real, o simbólico é lançado à categoria de semblante tanto quanto a imagem. Segundo Jacques Alain Miller, há no ensino de Lacan uma sequência que vai do simbólico ao significante e do significante ao semblante (MILLER, 2002, p.10), no que esse último inclui também o imaginário. A categoria do semblante, prossegue Miller, seria no ensino de Lacan uma escala no caminho do nó borromeano, onde sabemos haver uma equivalência entre os três registros: imaginário, simbólico e real.

Aqui, no final da década de sessenta, a novidade, entretanto, é a introdução da equivalência entre o simbólico e o imaginário que fará do falasser um ser de semblante.

Mas é preciso destacar também que nessa sequência que vai do significante ao semblante, é o real que acaba ganhando evidência, desbancando a verdade e, consequentemente reposicionando o lugar da mentira. Se a dialética da verdade ordenou o início do ensino de Lacan, é exatamente a temporalidade em jogo na dialética que permitirá que se diga que o verdadeiro dialético não é uma verdade conclusiva. Relembremos que a dialética produz mudanças e transformações introduzidas pelo fator tempo. Se há uma verdade no tempo tn, haverá outra no tempo tn+1. A leitura feita do caso Dora em Intervenção sobre a transferência (LACAN, 1998) é exemplar, pois se Dora chega se queixando a Freud de  ser um objeto de troca entre seu pai e o Sr. K, Lacan demonstrará como essa verdade se transmuta, a partir da intervenção do analista, fazendo surgir a participação ativa da paciente na situação da qual ela se sentia vítima .

Portanto não há um Outro do Outro que emita a verdade final e derradeira, fazendo com que constatemos que é impossível dizer de forma definitiva o verdadeiro sobre o verdadeiro. Com a noção de semblante a verdade mostra possuir sempre e simultaneamente uma face mentirosa, já que se trataria de um saber extraído no marco do impossível de dizê-la toda.

O uso da linguagem na experiência analítica está fundado nesse marco, ou seja, é o esforço de dizer o indizível que recolhe dessa fala tanto verdades mentirosas quanto faz existir o real que salta ou mesmo cintila fora da cadeia significante. É então a partir da experiência da palavra que uma análise engendra o semblante e o real, fazendo surgir, do que resiste a significantização, o real como impossível.

Essas elaborações sobre o uso da linguagem para a psicanálise evidenciarão também que não se pode dizer o que se quer, mesmo que haja liberdade para isso. A regra da associação livre, que faz pensar que tal liberdade seria irrestrita, acaba por demonstrar a quem se dispõe a passar pela experiência analítica que não é preciso que um Outro diga o que é falso ou verdadeiro, mas que o próprio exercício da fala vem colocar essa borda no que se diz. Se não há um Outro do Outro para dizer o que é verdade ou mentira, a experiência leva a constatar que há um impossível de dizer e que esse impossível presentifica que há ali um real.

Insistamos um pouco mais nesse ponto. A psicanálise trata do caso a caso, ou seja, o indivíduo que chega ao consultório do analista inevitavelmente passará a falar sobre seus impasses nos laços familiares e sociais, extraindo-os de seu contexto habitual. Ao submeter esses impasses à prova do significante, o que vemos surgir desse indivíduo é um sujeito dividido entre um significante e outro da cadeia. Esse deslocamento na cadeia que visa alcançar o significante derradeiro que possa nomear o ser do sujeito, só faz por evidenciar a falta desse significante último.

Por essa via conclui-se que quanto mais se busca recobrir um impossível de dizer dizendo-o, mais se depara com esse indizível, que se circunscreve gradativamente enquanto vazio de sentido. Ou, que quanto mais se tenta absorver o real pelas palavras, mais se constata que o real ao passar pela linguagem está fadado a mentir.

Logo esse impossível de dizer toda a verdade e que força o sujeito a percorrer insistentemente a cadeia significante, faz com que a psicanálise tome o sujeito como uma resposta ao real.

Desse ponto saltemos para a afirmação de Lacan, que ao retomar Freud em “A psicologia das massas”, dirá que o coletivo não é nada mais do que o sujeito do individual (LACAN, 1998, p.213). Introduzo aqui a noção de coletivo, pois a partir dessa breve exposição sobre a categoria do semblante, parece-me possível retomar a questão colocada no início sobre uma crise da linguagem como elemento público.

O ser falante é também por excelência um ser social e tomar o coletivo como o efeito sujeito do individual, evidencia como o laço social para Lacan se dá também como resposta ao real.

À constatação de que o social se funda nesse impossível e que a linguagem é a forma como o ser falante tem para lidar com o real, proponho pensar três modalidades de relação com o semblante que acabam por definir algumas formas de laço social.

A primeira se sustentaria na posição que Lacan nomeou como a do não-tolo. Os não-tolos seriam os que, por conhecerem a natureza dos semblantes creem poder prescindir deles. Porém, como o ser falante está condenado à linguagem, acreditar não precisar se valer dos semblantes é estar enganado de outra maneira. Para Jacques Alain Miller, essa posição se mantém num ideal pré-científico (MILLER, 2002, p.15), pois ao descartarem o uso dos semblantes denunciando que se trata apenas de significantes, acabam também descartando o real que todo discurso engendra. Aqui podemos nos perguntar se não haveria algo dessa posição de não se deixar enganar pelos semblantes nas tendências autoritárias que se manifestam hoje no Brasil. Tal posição acabaria por, na crença de poder acessar a verdade como toda, fazer com que o real retorne de forma nua e crua, acompanhado por isso de seus efeitos violentamente desagregadores.

Uma segunda modalidade seria aquela presente no discurso da ciência, que funciona a partir do paradigma de que há uma lei na natureza, que essa lei está escrita em linguagem matemática e que cabe à ciência decifrar esse real que retorna sempre ao mesmo lugar. Se o real foi apresentado anteriormente como um impossível de suportar por não cessar de não se escrever, a ciência prometerá superar a angústia daí advinda pela apreensão do real pelo saber.

Nesse ponto, haveria algo em comum com a psicanálise, pois ambas consideram que há um real que irrompe pelo impossível que se presentifica no desfuncionamento do mundo. Em seu artigo, O avesso da biopolítica e o vírus, Jésus Santiago nos lembra que para Lacan a diferença entre o mundo e o real é a “diferença entre o que funciona e o que não funciona” (LACAN, 2005, p.63) , e “se o que funciona, caminha e gira em círculos é o mundo, o real constitui-se como um obstáculo a esse funcionamento”. (SANTIAGO, 2020, p.2)

Se o bom uso dos semblantes é o que permite instalar um litoral ao real, Jésus Santiago nos alerta que diante da disseminação letal do coronavírus, no momento atual o protagonismo é dos cientistas (SANTIAGO, 2020, p.4). Respeitar os semblantes da ciência é lidar com a pandemia do coronavírus escolhendo apostar numa realidade construída coletivamente que faz prevalecer o enlaçamento com a vida.

Interroguemos por fim, o uso do semblante feito a partir da psicanálise e o que esse uso repercute na forma de se fazer laço.

Se, como dito anteriormente, tanto a ciência como a psicanálise, a partir do desfuncionamento no mundo, acendem ao real, a distinção entre ambas é que onde para a ciência há saber no real, para a psicanálise há gozo.

Isso implica dizer que para a psicanálise o acesso ao real se dá por uma via singular que se instala a partir da incidência da língua sobre corpo, instalando ali a escritura de um gozo que foge à lei e ao sentido.

Essa incidência do significante (S1) mortificará esse corpo (S/) quando esse significante sozinho, ao ser inserido na cadeia significante (S2), enquadrará os efeitos de gozo dessa incidência numa trama semântica. Esse uso do semblante pela via do Outro discursivo, visa tamponar o real, para buscar dar ao sujeito uma ilusão de completude ontológica.

Porém, a experiência analítica, ao introduzir a dimensão não-toda da palavra que se evidencia pela equivocidade significante, faz furo nessa trama de sentido, descolando o saber como verdade e abrindo, consequentemente, para um uso do semblante avisado de sua condição de verdade mentirosa.

Consentir com essa torsão que o equívoco introduz na forma de se lidar com a incidência da língua sobre o corpo faz com que se abra também para um consentimento com o sem sentido do gozo, não segregando-o como um estranho familiar, não escamoteando-o com identificações e nem mesmo encarnando-o como dejeto no próximo.

Ao buscar saber aí fazer com a contingência da emergência do real, um lugar mais digno ao gozo como impossível pode se constituir como o cerne singular de cada falasser.

Surge, portanto, desse ponto um paradoxo em relação ao laço social, já que para a psicanálise esse laço se daria a partir da série de Uns sozinhos, como uma multiplicidade de relações entre sujeitos singulares. O ideal que o líder encarna para o restante do grupo que o segue, fazendo desse coletivo um grupo fechado de semelhantes em torno do Um da exceção, será então bastante distinto de um social que se funda como uma série de exceções que as singulares do gozo introduzem de heterogêneo.

Portanto, se para a psicanálise não há laço social sem o uso dos semblantes, ela não nos deixa esquecer que no seu cerne há um real que resiste.

 

O boletim Bendegó agradece gentilmente a autorização da autora.

REFERÊNCIAS
ANTUNES, A. O real resiste – https://www.youtube.com/watch?v=wx_Pd-rpEhc
RAMOS, N. Brasil: dentro da câmera de mentiras – Seminário de cultura e realidade contemporânea – Entrevista concedida a Guilherme Wisnik: https://www.youtube.com/watch?v=pKMavHsKaV8
LACAN, J. Intervenção sobre a transferência (1951). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 214-225.
LACAN, J. O triunfo da religião. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. p. 63.
LACAN, J. O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada (1945). In: Escritos, 2005. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p. 213
MILLER, J.-A. De la naturaleza de los semblantes. Buenos Aires: Paidós, 2002. p. 109.
SANTIAGO, J. O avesso da biopolítica e o vírus. In: Correio Express Extra, n. 6, publicação online da Escola Brasileira de Psicanálise, 2020, p. 3-4:
https://www.ebp.org.br/correio_express/indice-extra-006/
Belo Horizonte, junho de 2020.
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